
Thursday, October 06, 2011
Brinquedos quebrados de nossas vidas

Friday, September 16, 2011
Meu erro

Meu erro é ser preguiçoso e indolente, deixando tudo pra depois. Sempre acho que existe tempo sobrando pra fazer o que tem de ser feito, e que falta tempo pra fazer o que gosto de fazer.
Meu erro é não ter atitude, não firmar o golpe. A hesitação é algo que me assombra e por vezes me domina, me paralisando diante de um evento importante.
Meu erro é valorizar demais certas atitudes. Se por bem ou por mal, deixo aquilo virar uma cicatriz enorme, e nunca mais me esqueço de algo que me machucou.
Meu erro é ser ingênuo. É acreditar em tudo que me dizem e não questionar. Deixo-me vencer pelo cansaço quando alguém insiste muito e bota emoção.
Meu erro é pensar devagar. Não tenho uma resposta pronta quando alguém me ofende, e preciso analisar quando aparece um desafio que exige uma resposta certeira e contundente.
Meu erro é me conformar. É pensar que estou deitado em um colchonete e, podendo me deitar em um king size com o devido esforço, permaneço na inércia, dizendo esperar o momento certo para me mexer. Mesmo a metáfora de se deitar é um erro.
Meu erro é correr poucos riscos. Abomino a idéia de abandonar minha zona de conforto, e é difícil encontrar coragem para tentar uma coisa nova.
Meu erro é dormir pouco. Sem disposição e energia para enfrentar um dia novo, tudo parece se renovar na mesma letargia, como um ciclo mórbido sem fim.
Meu erro é a inação. É não lutar pelas causas em que acredito, não me mobilizar por meus ideais. Não fazer a diferença é tão nocivo quanto o mal em si, e reclamar da situação sem nada fazer apenas aumenta o veneno.
Meu erro é a hipocrisia. É dizer algo apenas pra ser aceito, pra ser querido. Não está certo, é óbvio, mas acontece. Dizer isso já é ser hipócrita.
Meu erro é ser egoísta. Tenho dificuldades em dividir aquilo que me é dado, ou que conquistei. Repartir não é algo que faço naturalmente.
Meu erro é ser carente. Tendo um dia sido suficiente para mim mesmo, hoje me vejo tão dependente e frágil em relação a outras pessoas.
Meu erro é querer tudo fácil. Pouca disposição para lutar praticamente, não obstante fantasie no meu imaginário grandes batalhas e epopéias, que não passam de roupas de gala para os desafios do cotidiano.
Meu erro é não evoluir. É ser apenas mais um no meio da minha geração embriagada e fútil, mesquinha e mimada. É ter potencial e formação para ajudar a fazer mais pelo País e pelo mundo, e não mexer um dedo.
Meu erro é não aprender com meus erros. É errar a mesma coisa cinquenta vezes para aprender, e depois esquecer. É a completa falta de atenção em todos os níveis, o mais profundo do absenteísmo frente à realidade.
Meu erro é a comiseração. É ter peninha de mim mesmo, do quão bruto e ignorante eu sou. É me julgar grosso e sem refinamento, sem jeito, sem paz. É me sentir fraco e impotente, estando armado até os dentes.
Meu erro, enfim, é não ser o que fui concebido para ser. É ignorar minha missão, meus objetivos, meus talentos. É não saber o que fazer, nem por onde começar. É ter tantas perguntas sem resposta, tantas dúvidas, tantos arrependimentos, tantas correntes. Meu erro, camarada, é ser o que sou agora.
Tuesday, September 06, 2011
Pensamento de última hora
Tuesday, March 15, 2011
Dependente
Saturday, November 20, 2010
Não pode parar
Monday, March 08, 2010
Meu primeiro livro
Thursday, February 25, 2010
Diplomacia familiar
A construção, no entanto, já parecia não resistir ao teste do tempo, como eu e meus primos constatamos por meio de insistentes chutes voadores. O muro tremia, e parecia prestes a cair.
Eis que certa feita, mais determinados que de costume, começamos nossa tortura ao muro quando uma rcahadura apareceu. Vovó, intrigada com a balbúrdia dos moleques, também se achegou para pô-lo abaixo. E não há descrição que relate com fidelidade a alegria que sentimos ao ver a parede encardida envolta em poeira e bichos espatifar-se no chão.
Quem não gostou nada, porém, foi minha tia. Ela gostava do muro! O muro era importante para que nosso futebol arte não arrasasse suas plantas. E também, o muro caiu pro lado da área dela, sendo que nenhum demolidor restou depois da travessura pra ajudar com a limpeza.
Indignada, limpou toda a sujeira. Em menos de uma semana, eis que surge um novo muro, mais grosso, indo até o telhado, pintado na mesma cor da casa dela.
Parece-me, afinal, que não existem tantas diferenças entre um muro divisor de alpendres e uma fronteira internacional. Atitudes impensadas, interesses a proteger e negociações para tudo estão bem debaixo dos nossos narizes, são características das relações humanas. O jogo de forças que faz os países se mexerem ou estagnarem é o mesmo que define se um portão elétrico deve ou não ser instaldo. As proporções e a complexidade dos dois casos não podem se comparadas, mas a mecância social é a mesma.
Ora, se até dentro da família a gente tem problemas de convivência, pergunto-me se a paz mundial não é uma utopia. Bem, é um assunto deveras sério pra ser pensado em poucas linhas. Mas o muro caindo é uma boa lembrança e ainda me faz pensar...
Monday, January 04, 2010
formspring.me
porque você simplesmente desapareceu?
Eu não desapareci. Espera aí, de onde?
ja amou?
Não assim, no passado. Amo agora.
A Palavra e o vento
Enquanto o sol se aninha no horizonte, eis que a família se apronta para ir ao culto. Passamos no castelo amarelo pra pegar a princesa. Perto dos castelos sempre há monstros. Enquanto esperávamos, eu e meu pai descemos e começamos a conversar sobre uma moto frankenstein que ali havia. Tal qual a personagem da ficção, aquela criação tinha peças de várias de suas semelhantes, nem sempre colocadas de forma harmoniosa. Mas tinha bons freios.
A princesa chegou, todos a bordo, lá fomos nós. Mal começamos a andar e ouvimos o som que ninguém gosta de ouvir: o da buzina do carro de trás. E ninguém entre nós se deu ao trabalho de olhar, posto que se tratava de grande rudeza, exceto eu. Uma senhora gordinha e de rosto fechado acenava de forma intermitente com o gesto que em outras circunstâncias poderia significar "passe por cima!". Estando ela atrás, porém, não entendemos aquilo e pensamos que ela estava apenas querendo não ser legal com a gente.
Continuamos nosso caminho para a casa de Deus, almas cândidas e serenas, quando de novo soa a buzina para nós. Surge ao nosso lado um motociclista em sua galante moto, óculos escuros, todo de preto. Acho que disse algo assim:
- Ei! Tem um livro em cima do porta-malas!
E quando olhamos todos, a surpresa: lá estava a bíblia. A minha bíblia. Alguém a colocou no porta-malas enquanto falava da moto frankenstein (e não foi meu pai). Lá estava ela, pegando um ar, parecendo não se importar com o ventinho. Paramos como deu, o resgate aconteceu sem maiores problemas e seguimos nosso caminho.
Pois é... E a senhora gordinha estava apenas sendo legal em nos avisar... Se eu fosse bom em julgar as pessoas como sou em esquecer minha bíblia, provavelmente não precisaria ir à igreja.
Tal episódio, por fim, me fez respeitar três coisas: a aerodinâmica dos sedans(no terceiro volume parece não haver quase nenhuma resistência do ar), o processo de fabricação das bíblias(feitas pra aguentar tudo, inclusive esquecidos contumazes) e o peso da Palavra(vento nenhum leva embora).
Thursday, December 31, 2009
Friday, November 27, 2009
Faxina no orkut
É, as coisas mudam. As cabeças também. Antes eu achava que as comunidades poderiam ser um meio de expressão e até de diversão, e que quanto mais eu tivesse delas, mais legal iria parecer o meu perfil.
Agora eu não ligo muito pro que pensam do meu perfil. O que não me parece bom, no entanto, é que muitos daqueles grupos refletem alguém que eu não sou mais. E quando vi aquele mundo de comunidades, decidi que era hora de fazer uma limpeza.
Quando vi que precisava deletar uma a uma, veio logo a idéia de excluir o perfil e fazer um novo. Se o fizesse, teria de adicionar meus amigos de volta e minhas fotos também. Comparando as preguiças, fiquei com a de apagar as comunidades.
E nem dá pra comparar meu perfil com aminha vida, porque enquanto o orkut está cheio de coisas inúteis, até que na vida de carne e osso eu estou indo muito bem. Pra se ter uma noção, até nota boa eu tô tirando.
No fim, é com essa vida que a gente tem de se preocupar. É aqui que estão as pessoas, os sorrisos e os choros, a vida e a morte. Meu perfil ainda está bagunçado, mas enquanto a minha vida estiver boa, grande problema não será.
Wednesday, November 25, 2009
Tesoura de tempo

Estava eu conversando com meu tio a respeito de meus planos acadêmicos, quando ele disparou essa frase. Apesar de tê-la achado óbvia na hora, ela me deu muito o que pensar nos dias seguintes.
A conversa mudou de "meus planos" para "o que temos em comum" ou ainda "o que você está fazendo da sua vida, rapaz?". Titio fez jus a seu sobrenome italiano: falava animadamente, gesticulando e conciliando paradas estratégicas com olhares incisivos.
Acabou-se a prosa e eu fui embora com aquela idéia. Então, começaram a pipocar figuras na minha cabeça que tentavam traduzi-la. A primeira era a de um foguete, especificamente no ponto em que se livra de seus muitos módulos de combustível. Antes eram um auxílio, mas depois de conumida a energia, nada mais são do que peso inútil. A partir daquele ponto os pilotos não têm muitas opções: ou eles chegam ao destino, ou não haverá muito que possam fazer.
Mas uma outra imagem, mais simples, me fez entender melhor. Nossa vida é como uma fita. A gente começa com uma fita grande, a perder de vista, mas que vai diminuindo dia após dia. O tempo vai consumindo a fita, até que não haja mais fita. Tudo que sobra são retalhos.
Nossa vida, nossas possibilidades, a tira, tudo fica em pedaços. Curiosamente, quanto menor for o pedaço que tivermos, mais pesado será. Até não sobrar mais nada. Nada pro tempo cortar.
Thursday, October 29, 2009
@ net eh lívre xD~
A rede é um ambiente muito democrático e, graças a essa característica, permitiu a propagação do conhecimento e da livre manifestação do pensamento, o que é maravilhoso demais mesmo pra minha geração, que já nasceu com a liberdade no colo.
O que me deixa incomodado nesse cenário tão belo é que algumas ciências simplesmente não acompanharam a evolução que a internet trouxe. Veja, por exemplo, a língua portuguesa. Mesmo em fóruns especializados, em qualquer que seja o tema, podem ser vistas grandes atrocidades quando o assunto é o correto tratamento do infeliz idioma. O pior de tudo fica por conta da baixa disposição que temos de querer seguir regras, ainda mais num ambiente em que elas tecnicamente não existem.
Se cada internauta escreve do jeito que quer, é um favor que faz à diversidade. A credibilidade do que é dito, porém, nem sempre goza do mesmo privilégio. É difícil levar a sério um palpite cheio de erros grosseiros, mesmo que o assunto seja importante ou que o conteúdo ali expresso seja de fato verdade.
Também não dá pra dizer que a maioria tenta escrever certo. Com tanto dicionário e site de gramática por aí, o mais provável é que isso simplesmente não seja um problema ou uma preocupação pra muitos de nós.
Bem que eu acho importante saber se expressar até na internet, mas jamais poderia culpar aqueles que exercem seu direito de escrever com menos rigor. Afinal, também eles não podem me condenar por não acreditar em tudo que leio. No fundo, é bom que seja assim. Pior seria se todo mundo fosse obrigado a escrever de um único jeito mesmo no mundo virtual. Se pelo menos a gente conseguisse guardar os erros só pra internet...
Wednesday, October 28, 2009
Sobre o destino
Eis a nossa vida. Estamos todos correndo, tentando aproveitar o tempo e salvar a pele. O fato é que as atitudes das outras pessoas têm influência sobre as nossas vidas, e vice-versa. E por mais que tentemos, nem sempre somos capazes de prever com eficiência o que devemos fazer quando acontece algum revés.
Por isso mesmo, é bom lembrar que nossa independência em relação ao resto do mundo é limitada. Seja pela lei, seja pelo amor, ou por qualquer outra força maior do que a nossa, somos obrigados a fazer curvas e ter responsabilidades.
E antes que a auto-ajuda tome conta e flores voem pelo ar, duro é constatar que nem sempre os outros se encontram dispostos a cooperar com os nossos objetivos. Também não é da maior esperteza deixar que tudo se arranje por si mesmo. Afinal de contas, que motivos teria uma pedra para se mexer e rolar para o acostamento? Vai continuar sendo uma pedra no meio do caminho.
No fim das contas, importante mesmo é se mexer, reagir. Não significa, porém, que tenhamos de passar como uma patrola pelos outros. Significa que é bom querermos ser donos dos nossos narizes, mas também que devemos estar preparados pra possíveis reviravoltas. E sem culpar o alinhamento dos planetas.
Thursday, September 03, 2009
Barreiras humanas
Não faz muito tempo, escrevi aqui sobre uma dificuldade minha em cumprimentar pessoas, especialmente mulheres. Há muito tempo, porém, um outro apuro me aflige.
Que atire a primeira pedra quem sempre soube pra que lado ir quando cruzou com alguém que vinha em sentido contrário. Parece tão sem propósito sobre isso discorrer, mas as experiências vividas no dia de hoje mais do que justificam algumas considerações sobre tamanha hesitação.
O que me admira é que saber pra qual lado ir quando vem alguém nem sempre é um esforço consciente, mas em alguns casos, somos obrigados a interromper nossos pensamentos para encontrar uma solução pra esse obstáculo. E não é drama dizer que de vez em quando rola um constrangimento quando ambos os indivíduos vão pro mesmo lado.
A coisa fica boa quando as duas partes resolvem ir pro outro lado, um ato automático, a solução mais simples. O impasse, porém, permanece. Certa feita, numa dessas barreiras humanas, o homem que me barrava chegou mesmo a falar “eu vou pra cá, e você vai pra lá”, tão grande foi a indecisão naquele pequeno instante.
Talvez exista um pouco de orgulho em seguirmos no mesmo caminho até que uma mudança se torne inevitável. Pode ser também a mais pura desatenção, que é o que ocorre com este escritor.
E veja, na hora parece um tanto constrangedor que não consigamos nos decidir pra onde ir. Somos capazes de resolver problemas complexos e aprender coisas difíceis, mas engasgamos nossos passos muitas vezes durante a vida com esse pequeno impasse. Melhor mesmo é lembrar com humor esses episódios. Antes eu me irritava, hoje acho engraçado. As coisas mudam. Nossos caminhos mudam. Só não muda a necessidade perpétua de refinarmos nossa habilidade para nos desviarmos dos outros.
Sunday, July 12, 2009
Nada sob os pés
Meu chinelo de dedo arrebentou-se enquanto eu corria pra atravessar uma rua. É uma mania que eu guardo de recordação da minha infância. Peguei o par, resmunguei um "dane-se" e continuei sem eles. Assim, tive a oportunidade de andar algumas quadras descalço essa noite, experência tão simples quanto assustadora, considerando-se os padrões de higiene que me foram ensinados.
Parece óbvio, mas é sempre bom deixar explícito: andar descalço na rua é diferente de andar descalço em casa. Tão estranho quanto os olhares que recebi das pessoas foi a sensação de tocar o solo, sentir em detalhes a textura do asfalto, da calçada, da terra e da grama. Quanto a meus pés, a princípio apressados, logo trataram de andar num ritmo regulado, porém analítico.
Pude então sentir o que sentem os miseráveis, aqueles que mal podem cobrir seu corpo e não têm o luxo de ter qualquer proteção sob seus pés. Cada passo pra eles é mais um passo rumo à incerteza. Não sabem se irão se machucar, tampouco podem se garantir que é certo o caminhar em direção ao seu destino. Ao andar descalço na rua, aprendi a escolher melhor os meus passos e a atentar para meus sentidos.
Quando cheguei em casa, tão limpo estava o piso, e tãos sujos os meu pés, que cada passo virava uma pegada. Lavados os pés e limpa a casa, não pude fechar os olhos enquanto não organizasse as ideias sobre esse episódeo e aqui o eternizasse, para me lembrar sempre das lições que jamais aprenderia se tivesse um chinelo mais resistente.
Wednesday, July 01, 2009
Balões de vida

A princípio caminhando, seguíamos até o parque, quando por nós passou uma senhora em sua cadeira de rodas, também dando uma volta com sua cuidadora pra aproveitar o tempo bom. Instantes depois, passa por nós outra babá, empurrando um carrinho com um bebê a bordo. "Olha que coisa interessante", disse meu pai. E fiquei a pensar sobre aquilo durante a corrida.
Lá estávamos nós, cheios de fôlego e vigor, independentes e fortes. Um dia fomos tão desprotegidos e indefesos como o bebê, e é provável que num futuro ainda distante nos tornemos frágeis e dependentes como aquela senhora. A vida é mesmo como um voo, mas seria ingenuidade compará-la a um avião. Ora, aviões decolam, voam e pousam autonomamente, e nós não. Não nascemos com asas ou motores - não externamente, pelo menos. Precisamos de algo que nos lance no ar e de sorte suficiente pra conseguir um bom tempo, uma vista agradável e um voo prolongado.
Quanto ao pouso? Bem, nada de rodinhas, amortecedores ou freios. Quando o declínio se anuncia, carecemos também de alguma assistência. O desgaste do tempo nos rouba um pouco da destreza e do traquejo que adquirimos enquanto voávamos.
No fim, talvez a gente seja mesmo como balões de água. Veja, eles também não têm asas nem motores, e precisam ser lançados ao ar para que voem. Também vêm em muitas cores e podem trazer diversas emoções consigo, a depender de quem os recebe. Além disso, todo balão de água um dia estoura. Podemos pegá-los com cuidado e dar-lhes alguns intantes a mais de decência e dignidade, mas no fim, tudo vira água.
Saturday, June 13, 2009
Desistir é humano
Hoje não entendo mais assim. O tempo passa e eu vou aceitando com menos resistência a ideia de ser humano, e por isso falho, sujeito à dor e à fadiga. A determinação de fato é um sentimento forte e que cria raízes dentro da gente, mas ninguém pode condenar outra pessoa pelo fato de ela ter desistido de algo.
Isso porque todo mundo tá sempre desistindo de alguma coisa, de algum comportamento ou de alguém. Abrimos mão de hábitos, paladares, costumes, amores, objetos e frases, substituímos de forma consciente ou inconsciente quase tudo que compõe a nossa vida. O que há de errado nisso? Nada. Na verdade, é muito bom que seja assim. Se fôssemos exatamente os mesmos desde o nascimento até a morte, que papel teria a criatividade ou para que serviria a mudança e a diversidade?
Desistir é uma atitude importante, mas nada de supervalorização. Não dá pra simplesmente jogar tudo pro alto e cruzar os braços. O quebra-cabeça não cai montado. Tão importante quanto abandonar o que não se quer mais é perseguir aquilo que agora apetece. Afinal de contas, é por isso mesmo que vale a pena desistir.
Há coisas, no entanto, de que nunca se pode desistir. Ninguém pode renunciar à sua humanidade, nem à sua identidade, nem aos seus princípios. São elementos que, por mais apagados que estejam, sempre irão compor o universo que é cada um. São a base da vida, constituem os fundamentos pra todo o resto, que cada um constrói à sua maneira.
Desistir pode ser sinônimo de inovação e crescimento, de reinvenção de si mesmo. Pode ser também fraqueza ou covardia, mas não serei quem irá dizê-lo. Só quem desiste é que sabe. Mais importante do que se preocupar com a vida dos outros é que cada um conheça a si mesmo e esteja sempre de olho pra saber quando é mais conveniente destruir para construir.
Friday, May 29, 2009
Bater perna é bom
Outro dia ouvi alguém dizer "isso é mais fácil do que andar pra frente". As palavras entraram mansas na minha cabeça, sem provocar alarde. E numa das minhas caminhadas de volta pra casa, viajando no pensamento, fui sugado pra dentro dessa expressão.
Na verdade, andar pra frente é uma operação bastante complexa. Os que já tentaram andar de olhos fechados e os cegos que o digam. Caminhar em linha reta é um esforço que mal conseguimos notar quando estamos de olhos abertos.
Até o simples fato de colocar um pé a frente exige algum trabalho de nossos cérebros. E é algo de que nem nos damos conta na maioria das vezes, a menos que sejamos privados disso ou que levemos um tombo.
Fomos feitos para o movimento, faz parte de nós. Essa forma de pensar é tão presente em mim que me dou ao prazer de dispensar escadas rolantes, elevadores e automóveis sempre que possível. Andar, correr, pedalar e saltar são dádivas que nos levam aonde queremos, conferem a cada um de nós certa independência pra ir e vir. Precisamos usá-las enquanto estão presentes e funcionando, porque pode ser que, um dia, mesmo desejando sair do lugar, tenhamos de amargar a estática e o repouso involuntários.
Wednesday, April 29, 2009
Sobre loucos e respostas injustas
Eu estava tranquilo, andando no limite, assim como os que estavam ao meu redor. Sinto uma boa sensação quando vejo os carros rodando harmoniosamente, as rodas girando ao contrário-até o carro mais feio e velho pareceria bonito rodando suave numa pista lisinha e bem sinalizada aquela-quando pelo flanco esquerdo chega subitamente um vulto branco.
"Sai da minha frente que eu quero passar"- a música tocando lá na sala coincidentemente traduziu em palavras a atitude nada amistosa do senhor que sobre mim avançava. No susto, freei. Meu carro faz um som legal quando freia. Parece uma turbina desacelerando. Foi meu prêmio-consolação diante de tamanho desaforo. E quando pensei em esboçar um farol alto, já estava o Speed Racer do cerrado a muitos metros de mim, cortando outras tantas vítimas de sua pressa. Merecia aquele fanfarrão uma bela buzinada, pensei. Minha buzina, porém, ficou caladinha. Por um instante julguei-me um maricas, desses que levam o desaforo sem reclamar nem espernear.
Tendo o fatídico episódeo se desenrolado pela manhã, com o passar do dia esqueci-me de tudo aquilo. Há dias, no entanto, em que apenas uma situação de estresse não parece ser suficiente. Hoje foi um desses. Sendo, pois, já noite, eis que me atrevo pela terceira vez a sair de casa. E não importa pra onde eu vá, tenho sempre de passar por uma rotatória. Em tese, quem está no balão tem a preferência. Bem, não era assim que pensava o motorista que cruzou meu caminho. Outra freada apocalíptica. Dessa vez não deixaria barato. Na hora lembrei o que se passara de manhã, e aquele outro espertinho teve o troco: um bom e ofuscante farol alto.
Já rodando em ruas retas e prestando atenção em tudo, estranhava eu a escuridão incomum. Uma olhada rápida no painel... Tava sem farol. Que vexame. Talvez quem me cortou na rotatória não tivesse me visto... E fiquei a pensar sobre isso. No fim, talvez seja melhor sofrer um pequeno desaforo do que responder de forma violenta quando não se tem certeza. É em dias assim que a minha ignorância se mostra, e eu, vendo-a tão manifesta, tenho uma visão mais clara pra tentar diminuí-la antes de fechar os olhos.