Thursday, May 22, 2014

Viva e deixe morrer

Como é do conhecimento de todo ser vivo desta nação, uma certa programaçãozinha está prevista para acontecer em junho e julho. Ora, não há qualquer objeção para à ocorrência de um evento no País, desde que esse evento nos respeite. Somos amigos, queremos interagir. 
Aparentemente, e digo aparentemente apenas para fins eufemísticos, a condição acima não foi cumprida. Muitas pessoas estão sofrendo duramente as construções e renovações que estão sendo feitas. Estou falando de gente perdendo a moradia, de gente tendo cirurgia cancelada e de gente perdendo aulas. 
Há tanta coisa errada acontecendo que não existe o menor clima pra fazer festa. Toda a comemoração pode rolar, mas nós não somos obrigados a festejar. Ou somos?
Espere aí, isso é interessante. Eis uma coisa que se pode fazer para ser civilizado: nada. Faça nada, meu fi. Fale nada. Esnobe a coisa toda, dê um gelo, deixe que morra de fome, de carência, deixe que toda a glória aventada seja para uns poucos sozinhos, ou seja, para ninguém. Não mencione, não gaste, não, não, não. 
Interessante seria deixar a indignação ecoar no silêncio, o dinheiro no bolso. Coisa linda seria deixar que os fogos arrebentassem em vão, como que anunciando vitórias vazias e nada envolventes. Sim, deixe morrer em todo seu esplendor, como aquela ex maluca que liga sempre e aquele bully chato da escola. Deixe o silêncio ensurdecedor da rotina e de uma vida melhor encobrir toda a firula que é ter o quintal de casa invadido por quem chegou chutando o cachorro, trocando a decoração e dando em cima da mulher. 
Sim, meu jovem, vai ter... Alguma coisa no salão. Não concorda? Simples: ignore. A resistência de fazer nada, porém, já vou logo dizendo, é difícil. Lembre-se apenas de que não é obrigado a aceitar algo só porque todo mundo aceitou. Quem calar nesses dois meses não estará consentindo, mas ignorando a brincadeira de mau gosto, e atualmente, é o melhor que se pode fazer.

Wednesday, May 07, 2014

A fraqueza do singular

De 18/06/2011

Hoje faz uma semana que aconteceu uma coisa horrível aqui perto. Uma garota foi violentada bem próximo da minha casa. Segundo o que li nos jornais, ela foi arrastada até o local, e enquanto era conduzida, esperneou e se debateu, mas ninguém que passou pelo "casal" a ajudou. Fiquei indignado.


A frieza da cidade me impressiona. Não sei se é porque tive a oportunidade de viver um tempo em bairros que tinham clima parecido com o de cidade pequena, ou se é apenas questão cultural do cenário cosmopolita, mas é o que consigo perceber. Estamos todos na correria, e mal sabemos o vizinho que temos. Os amigos a gente conta nos dedos de uma mão, e os inimigos já são tantos que se perde a conta em meio ao estresse de se manter vivo.


Não sabemos quem está do nosso lado e quem é contra. Estamos sempre preocupados em atingir algum objetivo, em responder a demandas e expectativas. O produtivismo tomou conta de nossa sociedade, e a um preço bastante alto.


Como seres independentes, células individuais e especializadas de um organismo, temos capacidade de trabalho e força pra fazer aquilo que queremos sem depender de ninguém. No entanto, estamos igualmente sujeitos aos solavancos da vida, fruto das boas e más intenções de quem igualmente busca seu modo de vida passando por nosso caminho.


Aprendo cada dia mais a dar valor às pessoas que estão por perto, não apenas por uma questão de proteção, mas principalmente para me sentir fortalecido e fortalecer quem está ao meu redor. Gostaria de ver uma sociedade menos militarizada, com menos gente morrendo por motivos absolutamente idiotas.


Sei que soa utópico esperar que as coisas melhorem, ainda mais com essa moda de tragédia que impera na cultura pop e nos telejornais. O histórico de guerras e conflitos revela que entender o outro nunca foi uma das maiores preocupações do ser humano. Seria demais desejar uma mudança nesse sentido?

Penso que não; só espero que não esteja sozinho.

Monday, February 10, 2014

Andorinha atrasada



Um dos meus grandes arrependimentos no ano de 2010 é não ter montado uma resistência mais forte em relação à escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014. Talvez nada realmente mudasse pelo fato de eu dizer "sou contra" ou "não sei se é uma boa idéia, melhor não", mas todos saberiam da minha posição de desconfiança desde o começo.
Quando saiu a seleção, eu me perguntava se a gente tinha condição de sediar uma Copa. Em 2010 a resposta era óbvia, e infelizmente continua sendo em 2014.
E agora que as coisas estão parcialmente feitas e os bolsos realmente cheios, essa realidade ficou escancarada para todo o mundo. Há problemas na infraestrutura dos aeroportos, dos hotéis e do transporte público.
De fato, foram feitas muitas exigências legais por parte da Fifa para a realização do evento. Pessoas foram postas pra fora de suas casas em desapropriações absurdas e arbitrárias. Nossas leis foram subjugadas e dobradas. Há tanto abuso em todo o processo que não é nenhum exagero dizer que estamos nos prostituindo por um punhado de chutes a gol.
Não há ingênuo que acredite tratar-se de um mero evento esportivo. É muito mais. Antes fossem apenas jogos esportivos entre nações. Tenho a impressão de que o futebol de verdade virou mera desculpa de socialização, um coadjuvante dentro de seu próprio show. Mais importantes se tornaram os estádios, os patrocinadores e tudo aquilo que existiria apenas para divulgar e enfatizar o esporte, porém esse é o menor dos problemas dessa Copa.
Ao contrário, pairam dúvidas sobre a viabilidade do evento, e a maior parte dos benefícios prometidos não chegará a tempo. A própria lógica de realizar "obras para a Copa", quando elas deveriam existir para beneficiar a população, soa puramente reativa e oportunista.
É por esses motivos que tomei uma decisão. Não assistirei a nenhum jogo da Copa. Tentarei também não consumir produtos de nenhuma marca que abertamente apoie o torneio. A única coisa que me interessa é o Walk Again Project, do Miguel Nicolelis. No mais, nada.

Se é certo que uma andorinha não faz verão, que ao menos ela seja livre para voar pra onde quiser. As camisas estão lindas, os estádios também.  Peço, porém, licença aos superotimistas e aos bandidos para me esquivar de todo esse auê. Nem toda a beleza do mundo me fará esquecer a tolice que é ter a Copa no Brasil.

Wednesday, January 01, 2014

Dia primeiro

Não é o ano que muda. Sou eu que estou mudando. De hoje em diante, firmo o compromisso de ser a melhor pessoa que eu puder ser. Sim, deveras me comprometo a buscar a excelência da vida e das coisas, e a tentar, ainda que muitas vezes falhando, influenciar positivamente a vida dos que me rodeiam.
Não é o ano que acaba. Sou eu que, aproveitando a vibe da renovação que a todos se estende, decido enterrar os meus rancores e a deixar florescer o que eu tiver de melhor. Para isso, regarei com persistência os talentos a mim confiados e podarei com tenacidade as ervas daninhas que aparecerem. Assim farei, mesmo que a água seja distante e escassa, e a tesoura, embotada e senil.
Não é o ano que se esgota. Sou eu que, vendo o aperto da hora, comprometo-me a tentar não desejar apedrejar quem me acorda, e a desperdiçar menos tempo rolando na cama.
Nao é o ano que termina. Sou eu que, depois de tanto entrar em pilhas erradas e discussões ridículas, encerro os velhos desentendimentos e ofereço a paz e o respeito a quem tiver me ofendido ou sido ofendido por mim.
Não é o ano que se encolhe. Sou eu que, vendo a minha timidez me possuir e me arrancar oportunidades, decido correr mais riscos e a superar meus medos antigos, por mais assustadora que pareça ser a possibilidade de interagir com um estranho.
Nao é o ano que desbota. Sou eu que, agora, quero uma vida mais criativa. Estas já revoltas e impiedosas madeixas nao saberão da tesoura por meses, e as minhas notas, guardadas no disco, irão para a nuvem.
Nao é o ano que some. Sou eu que, já cansado, lanço fora os meus próprios fardos e os confio ao Rei Jesus, para que este, mais Valente do que eu, lute as lutas que não posso lutar e me dê força para encarar as que eu puder.
Nao é que o ano não tenha sido bom; ele foi. Sou eu que, decididamente, espero fazer deste o melhor ano que puder, para que nao precise prometer tanto no próximo dia primeiro.

Feliz Ano Novo

Friday, August 16, 2013

Cama arrumada

Certa feita, quando voltei de viagem com a família de uma antiga namorada, fui todo feliz contar o passeio pra minha avó. Ela então disse:

- Que beleza, hein, DanieL (um L gaúcho, mas ela era mineira)? Mas você arrumou sua cama?

Respondi que sim, e de fato eu havia arrumado minha cama. Mas fiquei com a pulga atrás da orelha. Por que raios ela me perguntaria isso? Não seria mais interessante perguntar sobre a praia, ver as fotos e comentar do hotel?
Claro que sim, seria muito legal ver as fotos, falar do hotel, que era novo, reviver em detalhes o jantar na praia. Porém, aquela senhora estava mais interessada em saber como andava o coração do neto, não em relação ao namoro, mas em relação a ele mesmo. 
Vovó sempre foi muito preocupada com o caminho dos filhos e dos segundos filhos. "Fico num cuidado", dizia quando a gente saía e não dava notícia. Os anos acumulados davam a ela a experiência e a legitimidade para nos criticar e nos corrigir.
Tinha a chama da bondade. Claro que, quando alguém morre, a gente tende a lembrar-se das coisas boas, esquecer as chateações e enterrar os defeitos junto com o corpo, mas dizer que dona Maria era boa soa como um eufemismo, até uma injustiça. Não negava ajuda; antes, ia atrás dos recursos para atender a quem pedia.
Dificuldades foram muitas. A mulher ficou viúva logo cedo, com três cabritinhos pra cuidar. Entregou sua vida ao Sagrado Coração de Jesus, e fiada nEle foi segurando as pontas, mandando os meninos estudarem sob a luz da lamparina. Não casou de novo, nem namorado teve. "Quando eu for, vou falar pra ele: 'tá aqui a Maria do jeitinho que você deixou'". Usou a aliança enquanto pôde. Nessa união nem a morte triscou.
Os filhos cresceram, todos eles sadios, cada um seguindo seu caminho. Vieram os netos, e foram amparados com o mesmo amor. Começaram os casamentos dos netos; no do mais velho e no da mais nova ela esteve. No final, o corpo não ajudava e a cabeça parecia querer sabotá-la, mas ela sempre se lembrava e fez questão de estar lá. 
Vovó não deixou bens. Se muito, uma casa e um barracão. Mesmo um pé de dinheiro, porém, não seria páreo para tamanho legado moral. Ela ensinou que a gente precisa estudar, trabalhar e ser correto, tudo com amor e honestidade. Fez isso muitas vezes falando, ralhando e até atirando seus chinelos em nós, mas o exemplo máximo foi o cotidiano.
E agora ela se foi. Já tínhamos uma responsabilidade enorme só por sermos de sua árvore genealógica, e agora ficou ainda pior. Foi difícil, foi tenso dizer adeus, mas se me perguntarem, direi que não foi nem de longe um dos velórios mais tristes que já vi. 
Hoje, quase duas semanas após o acontecido, estou aqui a relatar-lhes esses pedaços de vida. É que não consigo mais estender um lençol sem repensar a minha.


Wednesday, June 19, 2013

Revolução silenciosa

A gente vive um momento histórico no País. É bonito, é legal, é tudo de bom ver que nós, brasileiros, sempre tidos como passivos e manipulados, finalmente resolvemos nos levantar contra as injustiças diárias. Muito legal, mas qual é a raiz do problema?
A raiz do problema está em nós todos, na nossa atitude em relação a tudo. Os políticos são corruptos e criam leis idiotas e inoperantes? Bem, eles não nasceram lá, nós os elegemos. Os administradores públicos foram criados como toda a sociedade e estão lá porque foram eleitos.
A corrupção pública é um escândalo, sempre. Recursos desviados da saúde e da educação para a gasolina azul de alguns engravatados, que piada. E a corrupção particular, por que é tão tolerada? O lixo na rua, o cocô do totó na calçada, o amante dentro do guarda roupa, o colarinho da camisa sujo de batom, deu pra entender, né?
Eu não consigo me esquivar do pensamento de que o status quo ao nosso redor também é culpa nossa. Se a gente é conivente com as pequenas corrupções, que moral tem para discutir as "grandes"?
Talvez o maior benefício de tanto protesto é mostrar que os problemas da nossa sociedade nasceram e são alimentados dentro dela mesma. Podemos trocar as cabeças que mandam por mil anos, mas se os corações forem os mesmos, não vai adiantar. 
É importante ir às ruas e demonstrar indignação. Isso demonstra que não estamos cauterizados e indiferentes a tanta sujeira. Porém, acho que mais importante ainda é a "Marcha do Travesseiro", aquela que todos fazem antes de dormir. A revolução da consciência, silenciosa e altamente eficaz, é capaz de mudar comportamentos. Não faz sentido gritar e esbravejar pros políticos pararem de roubar, pros policiais não aceitarem propina, que a PEC 37 é um absurdo, se depois disso a gente para em fila dupla e fura a fila da lanchonete. É ridículo, é besteira.
Se existe tanta injustiça, talvez um dos primeiros passos que podemos dar é sermos todos mais justos e honestos. Sem desculpas, sem enrolação. Claro que é necessário chutar o balde e cobrar de quem deve ser cobrado, mas é bom lembrar que uma sociedade melhor necessariamente precisa de interações melhores e de indivíduos melhores. A hipocrisia, a mediocridade e a esperteza estão escancaradas para todos, e eu espero sinceramente que nós estejamos dispostos a combatê-las.

Wednesday, April 17, 2013

Tempos de cólera

Há quem diga que a Terra nunca foi um lugar tão tranquilo para se habitar. Existem comida e recursos de toda ordem sobrando *por enquanto*, o mundo está globalizado e não enfrenta grandes guerras nem pestes há um tempinho. Fico me perguntando, porém, se há paz, paz de verdade, e não consigo chegar a uma resposta positiva.
Nosso mundo está muito rápido, arretadamente veloz. Temos muito de tudo o tempo todo, sempre. Talvez isso explique por que fica cada vez mais difícil tomar decisões e agir racionalmente, sem viver no automático. 
E nessa velocidade toda, parece que a gente está perdendo algumas noções de bom senso, civilidade e justiça. Se já tínhamos um espírito coletivo fraco e abatido, na selvageria da adrenalina fica cada um por si, reduzindo qualquer estranho a um potencial bandido ou aproveitador. 
A gente desaprendeu a dar valor ao tempo, porque pra uma passagem tranquila é preciso segurança, e não há! Quem tem pressa come quente, e precisa comer e se queimar porque, se esperar esfriar, talvez não coma depois. 
Os dias são maus, muito maus. Há relatos de crimes frios e bárbaros dia após dia, atentados e conflitos ao redor do mundo. Nossa cultura é violenta, nosso comportamento mais ainda. Brigas de trânsito não raro acabam em tiros e shows tem estupros antes da entrada. Achamos super engraçado e até pagamos para ver uma pessoa desferir mil palavrões contra outra que talvez ela nem conheça. 
Perdemos a capacidade de discutir racionalmente, com argumentos. Se bem que, se considerarmos que força, dinheiro e armas são argumentos, então talvez precisemos redefinir o que é racionalidade. Ninguém gosta de discutir com balas e lâminas, afinal.
São tempos de cólera, como sempre, de vingança certa e velada. Não há amor brotando por aí, não, filho. Dar a outra face é coisa de retardado que não aprende da primeira e perdão é para mariquinhas. Não existe essa de orar pelos inimigos, já que todos precisam ser pisados e, eventualmente, mortos. Podem me dizer que o planeta é um lugar seguro e feliz, mas pra mim, por baixo de uma transparente e cada vez mais fina camada de racionalidade, impera a carnificina generalizada.

Monday, March 18, 2013

Não sabemos andar de bicicleta - Parte 2 de 2

Muito bem, antes de seguir com minha ladainha sobre não sabermos nos locomover, quero deixar claro que não estou condenando o ciclista pelo acontecido. Sou um grande defensor da bike como meio de transporte, mas creio que é preciso muito cuidado em cima da magrela, já que nosso País não está preparado para aceitar a bicicleta senão como um meio de lazer. 

Nos últimos períodos da faculdade, sempre que eu podia, deixava o carro em casa e ia de bicicleta pra aula. Tinha a sorte de morar relativamente perto, e o caminho era relativamente fácil. Meu pai, porém, nunca gostou muito da idéia. Ele dizia "rapaz, não ande de bicicleta na rua, que vem um bêbado e passa em cima de você".
Infelizmente o homem estava certo. Não aconteceu comigo, mas, coisa de uma semana atrás, um de nós ciclistas perdeu um braço na hipótese imaginada pelo meu pai. Como sempre fui muito preocupado com a segurança na bike, decidi que talvez esse pequeno texto ajudasse quem não quer abrir mão de uma bicicleta, mesmo sabendo dos riscos que corre.
Primeiramente, toda pessoa que se dispõe a subir numa bicicleta pra usá-la como meio de transporte deve saber que não se trata de passeio no parque. Existem regras a serem seguidas e acessórios obrigatórios. Quem está na bike precisa saber seu lugar e mostrar que está ali, para que as outras pessoas também saibam. 
Certo, noção de espaço é importante, mas tem também os acessórios. Se você está sobre uma bicicleta, o capacete não é opcional. Compre uma boa couraça pra cuca e um par de luvas. Invista fortemente em visibilidade também: compre faróis e lanternas potentes o suficiente pra ser visto de dia. O cuidado é apenas para não ofuscar outros que estejam na mesma via, então ajuste o ângulo correto das luzes, e deixe-as sempre prontas para uso. Não tenha vergonha de parecer uma árvore de natal, se for necessário.
Fundamental também é gesticular, fazer sua rota previsível. Se você já está visível e sinalizado, facilita pro motorista, mas se pode ajudar ainda mais, então que o faça. Muita gente que atropela um ciclista diz que "ele apareceu do nada!". Pois bem, você não vai ser dessas pessoas que aparecem do nada, porque sabe que sempre que quando uma bicicleta e um carro disputam espaço, a primeira sempre leva a pior. Em cima da bike, não é prudente agir como se os outros soubessem onde estamos ou pra onde iremos. Adendo importante: se tiver de atravessar uma rua pela faixa de segurança, desça da bicicleta. Nenhum motorista é obrigado a parar, a não ser que seja um pedestre.
Ah, sim, não deveria ter de falar, mas é claro que é necessário respeitar a velocidade da via. Tanto na rua quanto na ciclovia, ninguém está ali para correr ou fazer acrobacias. Há pedestres e carros com os quais um ciclista divide espaço, então é bom ser moderado na pedalada. Outro ponto importante é que os freios de uma bike não são tão rápidos quanto os de uma moto ou os de um carro, e isso deve ser levado em consideração na hora de calcular a distância de parada. Não custa lembrar: bike não tem ABS (ainda), então sossegue o facho na hora de frear, senão irá sambar com a roda de trás e cair (nisso eu tenho experiência). Freie mais com o freio dianteiro do que com o traseiro.
Monte de coisa, né? Usar a bike como meio de transporte, portanto, não é tarefa super simples. Exige muito cuidado e planejamento, mesmo que haja ciclofaixas ou ciclovias. É necessário se proteger e se fazer visível, e não dar sopa pro azar. Nenhum investimento em segurança é desnecessário: lembre-se de que qualquer tombo equivale no mínimo a um raladinho. 
Agora, pode ser que, mesmo tomando todos esses cuidados, o acidente da semana passada não pudesse ser evitado. No entanto, pode ser que outros acidentes envolvendo ciclistas possam ser evitados se mais pessoas seguirem essas dicas. E se um dedo for poupado por conta dessas palavras, então o esforço de escrever terá valido a pena. Não podemos nos proteger de bêbados e loucos, mas podemos nos proteger da ignorância e do desrespeito. E se queremos ter o respeito dos motoristas e da sociedade em geral, precisamos também respeitar e dar o exemplo. 



Friday, March 15, 2013

Não sabemos dirigir - Parte 1 de 2

Tivemos um acontecimento estarrecedor essa semana. Um motorista atropelou um ciclista. Na colisão, este perdeu o braço direito, que ficou preso no veículo. Sem prestar socorro, o motorista deixou o carona em casa e depois jogou o braço do atropelado num córrego. Fim?
Não. Não tem fim. Tragédias como essa sempre acontecem. A que narrei acima não foi a primeira nem será a última.  É esse tipo de evento que me leva a crer que nós, na verdade, não sabemos dirigir um veículo. 
Vou explicar melhor: a gente sabe como fazer o carro andar (na maioria dos casos), mas provavelmente muitos ignoram o risco que o movimento implica. Tio Ben, aquele do Homem Aranha, dizia que "com grande poder vem grande responsabilidade". 
Na nossa sociedade, que valoriza a aparência, o status, o poder e a juventude, carro é poder. O povo, porém, parece que faz vista grossa pra segunda parte da máxima. Não é nenhum absurdo dizer que o trânsito é perigoso. Fechamos a porta do possante, vestimos a armadura brilhante de metal e vidro e assumimos que nada nos impedirá de chegar ao nosso destino o mais rápido possível. 
Infelizmente, é verdade que, atrás do volante, a gente assume riscos estúpidos, que não valem a recompensa. Fazemos pela pressa, pela vingança, pela diversão pura, o motivo não importa. Colocamos no fio da espada não só a nossa vida, mas a de pessoas que estão ao nosso redor, mesmo que por um segundo.
Aliás, não é necessário mais do que uma fração desse tempo para mudar radicalmente uma porção de vidas.  Voltando ao nosso exemplo, quantas pessoas foram direta e permanentemente afetadas pela perda desse braço direito? Esse acidente poderia ser evitado? Será que o custo valeu a brincadeira do motorista? Valeria a pressa, a vodka comprada antes, valeria alguma coisa que o dinheiro, esse miserável adorado, compra?
Alguns podem dizer que aquele humilde limpador de vidros não deveria estar ali com sua magrela, que não estava sinalizado, nem com capacete etc. Com o perdão de todos os ignorantes e sábios, penso que isso não alivia um grama a grande burrada do motorista. Casos como esse tornam legítima e necessária a aplicação da Lei Seca tolerância-zero. Pena que o buraco seja mais embaixo, ligado à consciência do poder que um veículo proporciona. 
Não sei se ficou claro, mas não consigo frisar o suficiente o quanto é necessário ter cuidado na hora de se locomover, tanto a pé quanto sobre rodas. Não deveríamos assumir temeridades quando elas não fossem necessárias. E se alguém pensa que dirigir corretamente é algo sem graça, que tente pensar em quão desgraçante e humilhante é a experiência de um acidente. 
Não custa lembrar, por fim, que "os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres" (CTB, art.29, §2º). Antes de pegar num volante, pense em sua responsabilidade como pessoa e, por favor, tente não atropelar ninguém por um motivo fútil

Mas e o cara da bicicleta? Só digo uma coisa: senta que lá vem a história...


Thursday, February 28, 2013

Cidade Fantasma Virtual

Provavelmente já tenha acontecido na história da humanidade alguma coisa que tenha feito que uma cidade tenha sido quase totalmente evacuada às pressas. Seria um fenômeno assim, tão repentino e frenético que as pessoas, na ânsia de fugirem, não olharam para trás, nem jamais voltaram para buscar qualquer pertence. Assim, a cidade ficou lá, quase intacta, muitas casas preservadas em detalhe, praticamente um retrato de como se vivia naquela época.
Se você, assim como eu, nunca precisou passar fisicamente por isso, saiba que temos um exemplar de cidade fantasma bem na frente dos nossos narizes. Onde fica? Http://www.orkut.com. É como se uma rede social inteira tivesse parado no tempo. 
O Orkut foi um fenômeno no qual eu entrei atrasado. Peguei o auge, sim, mas foi daí pra decadência. E que decadência vertiginosa. A coisa foi tão rápida, o povo mudou pro Facebook numa fissura tão inexplicável que muita coisa do O rosa choque continua inalterada. 
Se entrar lá agora, Vossa Senhoria verá muitos namoros já extintos mais bem conservados do que se estivessem em formol. Sim, senhor, estão lá os status de relacionamento "namorando" com aquela e aquele que hoje são ex (quem sabe até já não se casaram com outros/outras), as fotos hoje antigas, os depoimentos, ah, os depoimentos... Quando alguém gostava demais de outra pessoa lá nos idos de 2007 a 2009, paixão irrefreável, amizade até a morte, fazia o quê? Depoimento fofinho, às vezes mais de um. Havia até quem se aventurasse nas "invasões". 
Por mais piegas que pareça, hoje parece que essas coisas tem certa beleza. Até o fato de estar quase tudo meio que intocado, pouca gente transitando pelas esquinas virtuais daqueles cantos. Dá pra contar nos dedos de uma mão as contas atualizadas dos meus amigos. As fotos de perfil de cinco anos atrás... Gente, como as pessoas mudam e a gente nem percebe. As carinhas jovens hoje são rostos bem delineados, com algumas ruguinhas de vinte e poucos anos, quiçá um cabelinho braco, sorrisos metálicos hoje cristalinos, ou o contrário. 
E tudo isso ainda está lá, em muitos perfis. Quase um museu da nossa geraçãozinha, o Orkut virou sinônimo de coisa ruim, desclassificada. "Facebook orkutizou", dizem as meninas com alma de madame. Esquecem-se essas mesmas das ruínas que ainda estão sobre todos nós, nessa nuvem chamada internet que faz chover sobre bons e maus. Dê uma olhada lá, minha querida, vá lá ver de qual é, meu caro sangue bom, que de repente ainda tem coisa no ar que já foi pro espaço faz tempo. 
Enquanto a limpeza não acontece, porém, dou uma passada por lá de vez em quando só pra sentir o cheirinho de naftalina com mofo. Quase um stalker nostálgico, entro nos perfis, checo os scraps. Interessante ver a beleza do que não existe mais, ter uma visão mais distante... E pensar que "nunca imaginei que as coisas iriam se desenrolar desse jeito". As modinhas passam, mas muitas lembranças ficam. E de efemeridade em efemeridade a gente vai vivendo, até chegar na eternidade.

P. s.: pra completar o clima de poeira e papel amarelo, escrevo essas linhazinhas ao som de Coldplay, no sempre bom e jamais velho A Rush of Blood to the Head. Meu Senhor, isso é tão 2003...

Friday, December 21, 2012

O palmeirense, o traído e a mãe sem a filha

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

(Carlos Drummond de Andrade. Poema de Sete Faces)



Não existe coisa melhor do que uma história sem sentido pra movimentar a internet. Não faz muita diferença se é piada ou se é sério, já que tudo será esquecido com a invenção da próxima história. O importante é o movimento, a discussão rasa.

Falar em fim do mundo tem um tempero a mais, porque no centro da muvuca está a ideia de que todos vamos morrer quase que instantaneamente vítimas de um meteoro, de bombardeio ou de qualquer outro meio rápido e indolor. Ninguém quer que o mundo acabe lenta e dolorosamente, afinal.

E o que mais me chamou a atenção em todo esse alarde é que, na verdade, fim do mundo é uma coisa muito pessoal. Permita-me exemplificar esse negócio de três formas bem singelas e nem por isso menos intensas.

Pergunte a um palmeirense o que é ver seu time afundar miseravelmente e depois ter de ver o técnico do time comandar a seleção do País. Ah, sim, no mesmo ano em que seu arquirrival conquista a América e o planeta. Só pode ser o fim do mundo.

Pergunte a um cônjuge traído o que ele sentiu ao descobrir a lambança de seu consorte. Não há humilhação que caiba nessas linhas pra dizer o que é uma situação dessas. É o fim do mundo do casado, com direito a pranto e ranger de dentes.

Se tudo isso parece leve, pergunte o que é fim do mundo a uma mulher que, depois de sucessivos abortos espontâneos, finalmente conseguiu dar à luz e teve de dar adeus a sua filhinha com sete dias de vida. Simplesmente não há ETs, planetas colidentes ou  bombardeios suficientes pra que ela se importe. O mundo não acabou na última explosão, mas no último suspiro.


Fim dos tempos é coisa relativa. Todo os dias, milhares de mundos sucumbem, outros tantos surgem e muitos sobrevivem em meio a alegrias, lutas e dores. Catástrofe planetária  parece um jeito cômodo demais para todo mundo se livrar de seus problemas, uma boa desculpa pra gente não mover um músculo pra resolvê-los.




Se é certo que esse texto pode ser lido, então é porque o mundo não acabou. A quem lê-lo, sugiro que abandone qualquer medo do fim, que mova mundos e fundos atrás de seus objetivos, e que viva com propósito. Esse mundão véi de meu Deus, apesar de umas indiretas de que quer cair pelas beiradas, não vai se acabar tão cedo.


Sunday, November 04, 2012

Aprendendo a dizer não


Todos os dias à noite, chegando na faculdade, temos de nos deparar com meia dúzia de pessoas distribuindo folhetos de eventos e oportunidades. Contratadas pra isso, muitas delas nem dizem um “boa noite”, apenas empurram um folheto em nossa direção, dizendo implicitamente que peguemos aquele pedacinho de papel e sigamos nosso caminho.
Já quase colando grau, percebi que a maioria desses folhetos não tem qualquer utilidade para mim. No entanto, continuava pegando e só me dava conta de tamanha inutilidade quando estava ali, com o papel na mão. Aparentemente é o que quase todas as demais pessoas fazem, e basta dar uma olhada nas lixeiras e arredores da entrada para comprovar. Então me pus a pensar sobre isso. Por que pegamos algo que não queremos, mal lemos e depois jogamos fora?
Determinado a acabar com essa atitude submissa, comecei a traçar estratégias para não ter mais de encarar o desgosto de pegar papéis desnecessários. Em princípio, andava colado atrás de qualquer pessoa próxima, pra que ela pegasse o folheto e não desse tempo de me oferecerem um. Percebi depois que agir desse modo é ainda mais bundamolice do que simplesmente aceitar pegar um papel e depois jogá-lo no lixo. 
Finalmente, entendi que a melhor forma de não pegar papéis que não queremos é dizer “não, obrigado”. Surpreendentemente, essa atitude tão simples me encorajou a ter mais pulso e a ser mais resoluto no cotidiano. Recusar ativamente alguma coisa implica não só um punhado de coragem, mas também de amor próprio. Uma olhadela no que está sendo oferecido pode ser o suficiente para saber se aquilo será útil ou não. 
E para quem sempre pega os papéis, é certo que um pouquinho de educação não machuca ninguém. Há lixeiras coloridas ali, na entrada mesmo, pra descartar os folhetos. Se estiverem lotadas, não tem estresse: folhetos de divulgação não causam câncer; é possível segurar até um punhado deles por mais trinta segundos até encontrar uma nova lixeira, a dez metros ou menos da primeira, e permanecer saudável.
Não é que todos os folhetos sejam inúteis (alguns trazem coisas interessantes, até). No entanto, dizer não a essa publicidade – e a toda a sujeira que ela gera na porta da facul – tem  e feito muito bem. Quando alguém vem me oferecer eu faço mais ou menos assim:







Tuesday, September 18, 2012

Estamos emburrecendo com a tecnologia?

Tecnologia é mais que uma palavra hoje em dia. A vida virtual e a extensão dela para todos os nossos aparelhos eletrônicos têm uma interferência substanciosa em todos os aspectos do cotidiano. Mesmo a galera que não é muito ligada em circuitos admite que estamos em um estágio de desenvolvimento galopante no que se refere a novos meios de fazer as coisas.
Estamos bem mais aparelhados do que as gerações que viveram antes da gente. Grande parte da população tem Internet, celulares com câmera, carros inteligentes (tá, um pouco menos aqui no Brasil), roupas leves, tratamentos de ponta e milhares de redes sociais para integrar. Muito legal tudo isso, mas e nós?
Bem, nosso hardware permanece o mesmo há pelos menos cinco mil anos, aproximadamente. Quanto ao software, temos que as pessoas ao redor do mundo inventaram diversas plataformas para lidar com suas necessidades, mas também esses programas evoluem a passos lentos e estão fortemente atrelados à parte física. 
Trocando em miúdos, nossa forma de comportamento, falando numa perspectiva macro, não se alterou essencialmente desde que o mundo é mundo. Continuamos amando quem nos ama, odiando que nos odeia. Continuamos inventando coisas e manias novas, jeitos de construir e de entreter. Existe tanta coisa boa para ver que bate uma desorientação em quem procura, e isso tudo é muito legal.
No entanto, a impressão generalizada é de que o mundo vai de mal a pior. Acusamo-nos todos os dias de degradar os valores morais e de não ter mais respeito por nada. Noções de autoridade, civilidade e boa educação estão minguando mais rápido que poços de petróleo. Continuamos matando, roubando e destruindo a nós mesmos e a todas as diferentes formas de vida possíveis com criatividade igualmente ímpar.  
Fica claro, então, que nós, seres humanos, não mudamos muita coisa desde que assumimos essa configuração. Ainda temos as mesmas capacidades e os mesmos debilidades de outrora, mas agora com mais meios de potencializar aquelas e minimizar estas. E quem vier depois vai ter mais ainda, mas continuará sendo feito de carne, osso e, quando muito, pinos e chips. A tecnologia em si é uma faca de dois gumes que a gente amola a cada dia que passa, cortando mais fundo pros dois lados ao mesmo tempo. Desse quiproquó sem fim, três bugs ainda restam soberanos, sem previsão de reparo: a fragilidade dos laços, a mediocridade das promessas e a maldade dos corações. Estamos precisando de uma atualização.

Wednesday, February 01, 2012

O legado que deixamos


Minha família perdeu recentemente uma pessoa muito querida, de quem todo mundo gostava. Tinha coração puro e olhos brilhantes, cheios de Paz. Foi um golpe duro, sentido e ressentido em Goiás e em Minas Gerais.
Vendo tamanha comoção no seio familiar, me pus a pensar sobre o que faz alguém sentir tanta falta de outra pessoa quando esta não se encontra mais entre os viventes. Por que alguns têm a morte pranteada e chorada à exaustão, enquanto outros sequer são notados ou lembrados?
Vão-se os dedos, os cabelos, os olhos, o corpo. Ficam os anéis, as roupas, os óculos e tudo o mais que restou. Objetos, no entanto, podem ser de outra pessoa. Mesmo os órgãos podem ser aproveitados e doados para um estranho necessitado.
Até onde a vista alcança, deixam saudades as pessoas que fizeram diferença para um mundo melhor, mesmo que esse mundo não tenha passado de um outro ser humano. Assim, o que fica da gente é o que fica nos outros. É a nossa influência, aquilo que fizemos de bom e de ruim a todo mundo. E é só.
No fim, o que fica da gente é só um pouco de alma. Alma que ficou aprisionada no coração das pessoas, que usaram um espacinho seu (voluntariamente ou não) pra guardar a lembrança do que fomos. Ter o legado preservado e lembrado, então, não é uma decisão consciente, algo como "quero que as pessoas se lembrem de mim". Talvez o mais importante seja realmente viver, aproveitar a intensidade de tudo.
Não digo se entregar aos prazeres e não se importar com mais nada, mas se dedicar àquilo e àqueles que nos fazem bem, buscar as coisas que queremos com amor e obstinação. Sim, porque, lá fora, a vida pulsa e explode em cores e rodopios, e existe muito o que fazer com um pouco de disposição.

Quanto a mim, não sei o que vou deixar de legado pra quem fica, até porque há muitas lutas pra administrar agora. Não que eu pense muito a esse respeito também - você vê, foram só algumas linhas. O que sei é que o exemplo de minha prima deixará lembranças boas, vívidas e duradouras em todos os que a conheceram. Vovó que o diga.

Wednesday, December 21, 2011

2011

Intenso. Essa é a palavra que definiria minha vida em 2011. Definitivamente, eu vivi com muita paixão os dias que se passaram. Não que tenha sido de todo bom.
O ano foi claramente dividido em duas partes pra mim. O início do primeiro semestre me trazia ventos de esperança, porque eu havia praticamente finalizado uma parte terrivelmente difícil da minha vida, que foi a monografia a distância. Eu estava confiante de que tudo iria bem e só precisaria viver normalmente para ter uma boa experiência, tocar meus sonhos e ajeitar a vida.
A coisa ficou ainda mais interessante com a viagem de carnaval, quando fui pro paraíso ao lado de outro paraíso. Veio, então, o clímax com a minha colação de grau - definitivamente, um dos momentos de maior êxtase na minha vida.
Tudo ia bem até que veio o meio do ano. Férias pequenas, pedregulhos emocionais entrando no sapato, remanejamento da vida pra segunda parte do ano.
Em agosto a situação ficou preta. Fiquei com a visão turva, tomei caminhos errados, investi meus níqueis em bois que não eram para mim, fiquei endividado e sozinho. Nunca esperei tanto que um mês passasse.
Setembro trouxe ventos de esperança e renovação. Fui começando a me reconstruir, até que, do meio para o fim do mês, veio o grande choque. E foi mau.
Foi então que decidi me fortalecer. Voltei pra academia, entrei na aula de dança, busquei meus amigos, meus quase amigos, meus colegas, meus conhecidos, todo mundo. Enquanto isso, vi e tomei atitudes impensadas, das quais certamente não me orgulho, mas que foram necessárias.
Meu, 2011 me trouxe tanto aprendizado... A maior parte dele, sim, no segundo semestre, e na base da paulada e da punhalada. Eu vivi tanto em 360 dias que parece que foram dois ou três anos. Percorri um grande espectro de sentimentos e emoções. Percebi-me mais humano, mais limitado, mas também mais consciente de mim mesmo e das minha habilidades. Eu me tornei mais forte e versátil.
E agora estamos em dezembro. O ano finalmente termina. Engraçado o finalmente... Em geral eu diria "mas já?". Mas não... Eu realmente quero que esse ano termine, e me deixe apenas as lembranças boas, o aprendizado e o amadurecimento. Mesmo porque não tenho tempo nem espaço pra guardar coisas ruins.
Em tudo que aconteceu, porém, vejo agora a presença firme e constante de Deus na minha vida. Se por ignorância, petulância ou teimosia, não fui merecedor de tanto aprendizado em tão pouco tempo, e mesmo assim Ele me conduziu com amor e paciência, e permitiu que meus pesadelos terminassem antes do dia 31.
Para 2012, não espero nada menos arrochado. Existe mesmo uma onda de pessimismo que se alastra na minha geração, então as coisas com certeza não estão muito boas. Mas é na confiança no Grande que tenho agora e na maturidade que adquiri que sigo tateando, batendo e apanhando. A vida é boa, e vale a pena. Quero viver cada instante com os olhos abertos e o coração bacana. Que 2012 seja melhor, e ainda mais intenso.

Thursday, October 06, 2011

Brinquedos quebrados de nossas vidas



Sempre gostei muito de brinquedos. Até hoje eles exercem um grande fascínio sobre mim, e são um hobby na minha estante. Meu quarto, como um todo, traduz um pouco do meu pensamento lúdico e até pueril, às vezes.

Naturalmente, à medida que vou crescendo, também crescem a complexidade e o nível de detalhes dos brinquedos que compro. Hoje gosto de bonecos e carrinhos que não durariam um minuto nas mãos de uma criança. Gosto mais de uns do que de outros, brinco com as poses aqui e acolá e, eventualmente, alguns acabam quebrados.

Quando isso acontece, tento com todo o esmero consertar o braço quebrado ou a rodinha empenada. Porém, às vezes tenho de aceitar que alguns estragos não têm reparação. Então retiro o camaradinha da estante e guardo-o na caixa.

A questão é que minha consciência vive brigando comigo por causa dessa "coleção". Eles ficam lá, praticamente sem uso, mas eu resisto muito à idéia de doá-los. Olhá-los em seu lugar, mesmo que seja dentro do guarda-roupa, me traz um pouco das lembranças que vivi no tempo em que eles eram os meus preferidos.

Esse comportamento egoísta, admito, não se justifica do ponto de vista da caridade. Um carrinho de três rodas pode ser a melhor coisa do mundo para uma criança que mais nada tem. No entanto, para mim aquelas três rodinhas são apenas um lembrete de que uma está faltando, e que as quatro o faziam deslizar pelo chão.

Vejo o fenômeno se repetir não somente em mim mesmo, mas em muitas pessoas que guardam relações deterioradas, apenas pela mistura de consolo e prazer que a coisa ou pessoa guardada proporciona. E isso ocorre em todas as gerações. Do bebê que apenas curte o chocalho quebrado no canto do berço, passando pelo garoto que não joga a bola furada fora, pelo rapaz que se recusa a deixar a garota de seus sonhos ser a dos sonhos de outro, até os senhores que juram ter um casamento bem sucedido, apenas por dormirem na mesma cama que suas já não tão amadas senhoras.

Duro me foi experimentar tal aprendizado. Expor-me assim, então, parece mais uma cacetada de misericórdia, mas é importante para expurgar os fantasmas. No fundo, todo o palavrório se resume a um amargo brocardo: ainda pior do que perder é ter de ceder.

Friday, September 16, 2011

Meu erro




Meu erro é me importar demais com algumas pessoas, achando que elas farão o mesmo por mim ou aquilo que eu espero que elas façam. Não ter a noção completa de uma situação me limita, e eu só vejo aquilo que quero.

Meu erro é ser preguiçoso e indolente, deixando tudo pra depois. Sempre acho que existe tempo sobrando pra fazer o que tem de ser feito, e que falta tempo pra fazer o que gosto de fazer.

Meu erro é não ter atitude, não firmar o golpe. A hesitação é algo que me assombra e por vezes me domina, me paralisando diante de um evento importante.

Meu erro é valorizar demais certas atitudes. Se por bem ou por mal, deixo aquilo virar uma cicatriz enorme, e nunca mais me esqueço de algo que me machucou.

Meu erro é ser ingênuo. É acreditar em tudo que me dizem e não questionar. Deixo-me vencer pelo cansaço quando alguém insiste muito e bota emoção.

Meu erro é pensar devagar. Não tenho uma resposta pronta quando alguém me ofende, e preciso analisar quando aparece um desafio que exige uma resposta certeira e contundente.

Meu erro é me conformar. É pensar que estou deitado em um colchonete e, podendo me deitar em um king size com o devido esforço, permaneço na inércia, dizendo esperar o momento certo para me mexer. Mesmo a metáfora de se deitar é um erro.

Meu erro é correr poucos riscos. Abomino a idéia de abandonar minha zona de conforto, e é difícil encontrar coragem para tentar uma coisa nova.

Meu erro é dormir pouco. Sem disposição e energia para enfrentar um dia novo, tudo parece se renovar na mesma letargia, como um ciclo mórbido sem fim.

Meu erro é a inação. É não lutar pelas causas em que acredito, não me mobilizar por meus ideais. Não fazer a diferença é tão nocivo quanto o mal em si, e reclamar da situação sem nada fazer apenas aumenta o veneno.

Meu erro é a hipocrisia. É dizer algo apenas pra ser aceito, pra ser querido. Não está certo, é óbvio, mas acontece. Dizer isso já é ser hipócrita.

Meu erro é ser egoísta. Tenho dificuldades em dividir aquilo que me é dado, ou que conquistei. Repartir não é algo que faço naturalmente.

Meu erro é ser carente. Tendo um dia sido suficiente para mim mesmo, hoje me vejo tão dependente e frágil em relação a outras pessoas.

Meu erro é querer tudo fácil. Pouca disposição para lutar praticamente, não obstante fantasie no meu imaginário grandes batalhas e epopéias, que não passam de roupas de gala para os desafios do cotidiano.

Meu erro é não evoluir. É ser apenas mais um no meio da minha geração embriagada e fútil, mesquinha e mimada. É ter potencial e formação para ajudar a fazer mais pelo País e pelo mundo, e não mexer um dedo.

Meu erro é não aprender com meus erros. É errar a mesma coisa cinquenta vezes para aprender, e depois esquecer. É a completa falta de atenção em todos os níveis, o mais profundo do absenteísmo frente à realidade.

Meu erro é a comiseração. É ter peninha de mim mesmo, do quão bruto e ignorante eu sou. É me julgar grosso e sem refinamento, sem jeito, sem paz. É me sentir fraco e impotente, estando armado até os dentes.

Meu erro, enfim, é não ser o que fui concebido para ser. É ignorar minha missão, meus objetivos, meus talentos. É não saber o que fazer, nem por onde começar. É ter tantas perguntas sem resposta, tantas dúvidas, tantos arrependimentos, tantas correntes. Meu erro, camarada, é ser o que sou agora.

Tuesday, September 06, 2011

Pensamento de última hora

"Você não pode pensar muito, senão não faz".



Ah, a razão... O instituto supremo dos seres humanos, a ferramenta pela qual somos capazes de entender e discernir as coisas que sucedem ao nosso redor. A antítese da emoção pura, enfim, da ação caótica e não planejada.

A complexidade do ser humano me causa fascinação e estranhamento. Nossa natureza sempre oscilante parece gerar uma espécie de equilíbrio pra que a gente seja capaz de se adaptar ao cotidiano da forma que pareça mais adequada ao momento.

O discernimento é uma obra admirável de nossas mentes. Ele permite que planejemos e sejamos capazes de traçar rotas e linhas de ação antes da execução de uma evento. No entanto, pensar exige tempo. E tempo é tudo que não precisamos quando estamos prestes a começar algo, pois pode ser que surja um único pensamento infame, que pode colocar tudo a perder. É o demolidor da pouca certeza, aquele que sempre começa com um "Mas...".

O pensamento de última hora é a completa transformação da hesitação em reação visível, a última linha de defesa de quem ainda tem uma sombra de dúvida e se permite tempo para erradicá-la. É quando aquele medinho nos paralisa por um instante e nos faz perder o momento do bote rumo ao desconhecido.

Nada mais verdadeiro do que dizer que, para algumas coisas, não se pode pensar em demasia. De fato, esmiuçar todas as nuances na iminência da ação é algo impensado para quem busca sucesso. O que parece dar o melhor resultado é cultivar um estado mental positivo e confiante, forte e rápido para executar as ações do ponto de ignição. Afinal, metade da vitória tem de estar em nossas mentes, já perfeitamente construída. É pra isso que pensamos.

Tuesday, March 15, 2011

Dependente

Eu estava na aula, um pouco distraído, porém com os ouvidos abertos ao que se passava. Ao ser interpelada pelo professor sobre qual tema gostaria de trabalhar na monografia, uma colega disse que era apaixonada por Direito Penal, e que adoraria abordar alguma coisa nessa seara. O professor, então, disse: "legal! Eu não sou apaixonado por Direito nenhum. Sou apaixonado pelas pessoas, e elas me fazem buscar com afinco aquilo que me parece interessante."

Já se passou algum tempo desde que essa aula aconteceu, mas só agora essa frase está passando pela minha cabeça. E nas minhas divagações, vi que também eu faço a maior parte das coisas que faço por causa de outras pessoas. O cara tinha razão.

Claro que não dá para generalizar. Afinal, também fazemos coisas simplesmente por gostarmos daquilo, sem que a relação com outras pessoas interfira. Para mim, no entanto, perceber que essa é a exceção, e não a regra, foi bastante desafiador, porque eu pensava justamente o contrário. Gostava da idéia de ser um pouco independente, de poder dizer para mim mesmo que não dependo tanto dos que estão a minha volta, mas parece que estava enganado.

Comecei então a perceber o poder de contágio das emoções, tanto das alheias como das minhas. Gosto de observar tudo, e tamanha influência está ficando mais clara paulatinamente, nos gestos e olhares do cotidiano, como luzinhas que se acendem. Talvez seja parte do processo de envelhecer.

Saturday, November 20, 2010

Não pode parar

Tirando as teias de aranha, sacodindo poeira daqui e dali. Abandonada esteve esta parte de minha vida por sabe-se lá quantos meses (oito, talvez). Mas fiz uma promessa pros poucos seguidores que restaram, então cá estão retomadas as atividades do blog.
Não tenho muito a dizer agora. Estou perto de acabar um dos meus cursos, e apesar de estar um pouco relaxado agora, tenho sempre a sensação presente de que não se pode dar mole pra tranquilidade.
Nunca tive tão clara a noção de passagem do tempo como agora. É como uma névoa que passa muito rápido. Mesmo as segundas feiras passam rápido. Os trabalhos, às vezes chatos e mesmo sendo muitos, passam rápido. Até as mancadas estão voando. Minha barba, sinal antes incipiente de que meu corpo quer ser adulto, está crescendo freneticamente, como se a próxima lâmina fosse a última.
Quer seja isso algo bom ou ruim, vejo que muita gente tem consciência, mas temo que estejamos rápidos demais para pensar em pensar sobre a vida. É como um carro que, depois de atingida certa velocidade, perde a direção e os freios. Bizarro é que quem não dispara na correria acaba sendo alcançado por algum moinho ou bala violenta. E ver outros em parelha, na mesma toada, só torna as coisas mais assustadoras.
Estranho, parece que tem tanta coisa que quero fazer, mas acho que não vou ter tempo de fazer a metade. Ver o progresso de tudo e não poder parar pra observar chega a ser tantalizante. Mas é melhor parar de reclamar e seguir em frente. Afinal, esse post foi pra tirar a poeira. Melhor voltar a correr antes que minhas pernas esfriem.