Nesse mês faz um ano que recebi alta depois de ficar três dias internado por suspeita de dengue. Foi uma experiência bastante significativa na vida, e senti que deveria compartilhá-la.
Eu havia passado um domingo cheio de febre e de banhos frios para começar uma semana ainda sem muita noção do que era saúde. Entre remédios vivi aqueles cinco dias, até que os hemogramas começaram a acusar uma queda acentuada nas plaquetas. Para quem já não tem muitas, como eu, era um fator preocupante.
Fui levado ao hospital no sábado, repeti o exame e a médica decidiu que eu havia de ficar era por lá mesmo. Isso porque o vírus havia tomado gosto pelos meus anticoagulantes, e pegou a lanchar meus evitadores de hemorragia. Um pouco menos de plaquetas e eu precisaria receber transfusões sanguíneas.
Foi numa das noites cansativas no quarto do hospital que me bateu uma tontura muito folgada. Minha pressão tinha diminuído sem explicação. Naquele momento, com o pensamento meio embaralhado, consegui firmar a ideia para então realizar que estava completamente entregue a uma circunstância sobre a qual eu não tinha controle. Para longe haviam ido minhas forças, minhas emoções, meus neurônios. Estava na mão de Deus. "Vamos esperar pra ver o que acontece", disse a enfermeira lá longe, trocando meu soro, e eu lá.
Felizmente, durante os dias em que fiquei internado, fui me recuperando e, antes do meio dia daquela terça, já curtia o sol bravo de onze horas pela janela do meu quarto. Via o vento passando os dedos pelas copas das árvores, tranquilo. Era um dia doce, com batata frita e suco de uva. Era um homem livre.
Desde então, sempre fui muito preocupado com a dengue. Meus amigos me zoam porque, nos ensaios da banda, sempre levo um repelente. Bem, talvez seja mesmo engraçado ver como pessoas que passaram por tempos difíceis na vida tentam evitar que a experiência se repita, e eu mesmo já fiz troça de muita gente que se cuida um pouco mais pra espantar o medo. Seja como for, repelentes sempre estão na lista do mercado ultimamente.
Embora seja uma doença penosa e, muitas vezes, letal, aparentemente não temos dado atenção a essa batalha. Quero dizer que sim, uma grande parte da população sabe o que é necessário para combater o mosquito, mas não o faz. Não sem razão, o número de casos teve um aumento explosivo em 2015, e muita gente está, nesse instante, passando pelo que passei na cama do hospital, porém no chão, abandonada em corredores e entregue a outros tantos parasitas malditos que nos assolam.
A dengue é uma doença oportunista e muito curiosa. Basicamente ela tem se aproveitado da nossa apatia em manter as coisas organizadas e limpas. Nossos lotes abandonados, nosso relacionamento precário com o lixo e nossas vidas bagunçadas dão condições mais do que suficientes para que o mosquito se reproduza como quiser, tanto quanto permitam o seu sistema reprodutor e os seus poucos dias de vida. É de se pensar como um organismo com menos de um grama pode derrubar e matar um homem feito. Mais estranho ainda é quando se percebe que falta água para as pessoas, enquanto que para os mosquitos sobra.
Monday, May 18, 2015
Thursday, March 19, 2015
Quando Apertei o Unfollow
(fonte: http://goo.gl/7OZNkq)
Quando cogitei dar unfollow, confesso que não pensei ser grande coisa. Bastava apenas pegar o celular e apertar uns botões, foi o que me disseram. Não era nada difícil de fazer, mas deixei a coisa seguir, já que não recebia notícias mesmo.
Já não nos falávamos fazia um tempo, não tínhamos qualquer pedaço de vida em comum, a não ser por aquele fiapinho virtual chamado follow. Ficamos nos seguindo de longe, fingindo não saber que, por uma miséria que fosse, aquele pequeno punhado de bits ainda era algo que poderia nos levar a saber mais de cada um.
O tempo foi passando e eu vi que, ali dentro, como um brinquedo novo que quebrou depois de duas semanas, lá estava o perfil, a conexão inerte feito sombra risonha na tela branca. E do lado de cá, eu, sempre o moleque atormentado, que esperava que o boneco se levantasse, que fizesse alguma coisa, e que, em isto acontecendo, sairia correndo apavorado.
Quando vi que precisava, demorei para juntar forças. Mais fácil me parecia fazer qualquer outra coisa do que levantar meu próprio dedo contra uma memória selecionada. Não tinha de ser uma coisa tão tensa, analisei. Mas tinha.
Quando tive de dar o unfollow, enrolei o que eu pude. Marcado era o dia, feio e amargo, coisa de resolução, não havia de passar. Sem nem pensar muito, foi o dedo no exato lugar, dois cliques, intenção, confirmação, que era pra ter certeza, e sem ser demais.
A vista embaçou, caiu uma chuvinhazinha vagabunda de fina no coité e tocou aquela música do Legião. E digo sem exagerar que até a poeira do mundo dos vivos pairou quietinha no ar naquele instante, e depois caiu no chão novamente.
Aí veio um alívio esquisito, desses que nos sucedem quando alguma coisa se resolve sem ser o resultado melhor. Foi isso. Tirei um peso de esperar e troquei por uma pedrinha toda escrita, que guardei numa gaveta. Não fico olhando sempre, mas sei que está lá.
Meu telefone sobreviveu ao evento, como sempre fez depois de tantos outros unfollows. Também eu não morri, não muito, pelo menos. Deixei-o no num canto e fui tomar um copo d'água. Da janela, via o tempo clarear: ia-se embora a tempestade.
Monday, February 02, 2015
Pródiga Tragédia
Eis que Deus é grande, e nós não o compreendemos, e o número dos seus anos não se pode esquadrinhar.
Porque faz miúdas as gotas das águas que, do seu vapor, derramam a chuva,A qual as nuvens destilam e gotejam sobre o homem abundantemente.
Porventura pode alguém entender as extensões das nuvens, e os estalos da sua tenda?
Eis que estende sobre elas a sua luz, e encobre as profundezas do mar.
Porque por estas coisas julga os povos e lhes dá mantimento em abundância.
Jó 36:26-31
Então chegamos a este ponto: o maior e mais rico país da América Latina está, com toda a ironia que a situação oferece, mergulhado numa crise de falta d'água. É curioso demais para não se manifestar.
Se tinha alguma área em que eu imaginava que jamais passaríamos aperto, era a água. Estamos literalmente sentados em uma bolsa monstruosa desse líquido e temos a maior floresta tropical do planeta. E mesmo com tantos trunfos dentro de casa, muitos de nós já sentem a escassez e a secura no cotidiano.
A situação parece ficar ainda mais cínica quando se percebe que o estado mais afetado pela seca da nação é, historicamente, o mais escarnecedor daqueles que sempre tiveram pouca água. Dia após dia, os reservatórios de São Paulo minguam, como que anunciando novos e mais difíceis tempos.
A questão da água no Brasil me parece estar mais relacionada à prodigalidade do que a qualquer outra coisa. Nunca fizemos muita questão de economizar um bem tão abundante e presente, apesar de sabermos de sua importância. Nossas calçadas sempre foram muito bem limpas com água potável, nossos vazamentos estão ali há anos, e é claro que precisamos tomar banhos de meia hora, isso faz parte da nossa cultura. O que não parece fazer parte dela é o planejamento.
Se o dinheiro não aceita desaforo, o que nos fez pensar que a água, muito mais valiosa, aceitaria? Se a gente trata assim um recurso sem o qual morreria em poucos dias, me apavora pensar em como tratamos os demais. Dizer que falta água no Brasil é como dizer que um ganhador de loteria hoje passa fome, algo absurdo, mas que a realidade mostra que existe. O fato é que, para quem não sabe como utilizar alguma coisa, nem toda a criação bastará.
E eficiência agora é o nome do jogo, as regras mudaram. Até que a situação se estabilize, serão necessários alguns anos, muito suor e muitas lágrimas. Esperamos que seja mais suor e menos lágrimas, para que haja mais trabalho inteligente e menos lamentação sem propósito. Pode ser que não mais vejamos abundância hídrica como antes; cada gota importará daqui para frente.
Será que aprenderemos algo com essa experiência? Conseguiríamos nós ter um consumo responsável e eficiente, não só da água, mas de tudo que temos ao nosso dispor? Honestamente, desconfio, mas, ironicamente, faço a minha parte. Em algumas situações, a esperança reside no desejo de estar enganado. É tempo de fechar torneiras e estancar vazamentos.
Wednesday, December 31, 2014
2014
A ideia de viver apurado, atolado em trabalho, nunca me pareceu atraente. Sempre quis ter tempo. Prefiro um estilo de vida mais tranquilo, sem tanta agitação no cotidiano. Tempo pra pensar, pra jogar, pra refletir e fazer minhas coisas, tempo pra jogar fora, até. E em 2014 eu consegui ter muito disso.
Ironicamente, eu também nunca desperdicei tanto tempo e tanta energia como no ano que passou. Foi um festival de preguiça e marasmo, na maior parte. Mas também foi um ano de muita produtividade e reflexão, se é que assim posso dizer. Quando há tempo, a gente pode pensar com mais calma e planejar com mais exatidão.
Mas não sejamos ingratos. Deixando toda a polêmica temporal pra lá, 2014 foi um ano de altos e baixos, mas altos muito altos e baixos não tão baixos. A topografia do período realmente foi interessante, e se tem uma coisa que ganhei nesses dias foi maturidade.
Foi bom começar um ano com mais tranquilidade. Sim, desde o começo foi tranquilo. Já no primeiro trimestre também, me tornei o administrador de um grupo que foi muito além do celular, e se tornou meu amigo de verdade. Tempo bom é aquele em que se faz amigos.
Fiquei doente. Fui parar no hospital. Certamente uma experiência desagradável, e tal adjetivo já está de bom tamanho, sem eufemismo. Não tenho coragem de reclamar de dengue nenhuma com tanto amor que recebi. E no momento mais crítico, quando minhas plaquetas falharam em se reproduzir, lá estava Deus mostrando sua soberania e grandeza. Quando saí do hospital, foi como o primeiro dia de liberdade.
Já curado, entrei para o time dos que não gostavam da copa (e aqui me refiro ao evento esportivo, com letra minúscula). Já não gostava antes da ideia, e com o acirramento dos ânimos, tomei esse lado e disse que não assistiria a nenhum jogo. E assisti. O evento aconteceu e aí estamos nós com essa dívida gigante, com estádios ilegais e com pessoas que talvez ainda não tenham onde morar. Serviu, porém, para eu aprender que, mesmo quando há boas intenções em resistir a alguma coisa, pouco vai adiantar uma reação atrasada. Também a resistência precisa de timing.
Já no segundo semestre, mudanças pessoais e profissionais. A novidade é mesmo algo surpreendente e, em alguns aspectos da nossa vida, é bom deixar essa sensação sempre viva, não importa por quanto tempo alguém esteja com a gente. Rock step, triple step...
Por falar em companhia, inclusive, devo dizer que esse foi um ano regenerador. Consegui evoluir muito como pessoa, adquiri conhecimento de mim mesmo e dos outros. Mais uma vez, em alguns pontos hoje sou uma pessoa mais madura e mais leve.
No final do ano, ainda tive o privilégio de conhecer novos horizontes. Antes eu não gostava de viajar, mas, de novo, o que não é o amadurecimento na vida de uma pessoa...
E quanto ao ano novo? Boas previsões, com certeza. Precisarei de mais energia, principalmente para eliminar desperdícios tão presentes agora. Há muito mais para fazer, e o tempo voltará a ser recurso escasso. Deve haver agitos, até porque águas tranquilas como as de 2014 não podem nem devem durar para sempre.
Ironicamente, eu também nunca desperdicei tanto tempo e tanta energia como no ano que passou. Foi um festival de preguiça e marasmo, na maior parte. Mas também foi um ano de muita produtividade e reflexão, se é que assim posso dizer. Quando há tempo, a gente pode pensar com mais calma e planejar com mais exatidão.
Mas não sejamos ingratos. Deixando toda a polêmica temporal pra lá, 2014 foi um ano de altos e baixos, mas altos muito altos e baixos não tão baixos. A topografia do período realmente foi interessante, e se tem uma coisa que ganhei nesses dias foi maturidade.
Foi bom começar um ano com mais tranquilidade. Sim, desde o começo foi tranquilo. Já no primeiro trimestre também, me tornei o administrador de um grupo que foi muito além do celular, e se tornou meu amigo de verdade. Tempo bom é aquele em que se faz amigos.
Fiquei doente. Fui parar no hospital. Certamente uma experiência desagradável, e tal adjetivo já está de bom tamanho, sem eufemismo. Não tenho coragem de reclamar de dengue nenhuma com tanto amor que recebi. E no momento mais crítico, quando minhas plaquetas falharam em se reproduzir, lá estava Deus mostrando sua soberania e grandeza. Quando saí do hospital, foi como o primeiro dia de liberdade.
Já curado, entrei para o time dos que não gostavam da copa (e aqui me refiro ao evento esportivo, com letra minúscula). Já não gostava antes da ideia, e com o acirramento dos ânimos, tomei esse lado e disse que não assistiria a nenhum jogo. E assisti. O evento aconteceu e aí estamos nós com essa dívida gigante, com estádios ilegais e com pessoas que talvez ainda não tenham onde morar. Serviu, porém, para eu aprender que, mesmo quando há boas intenções em resistir a alguma coisa, pouco vai adiantar uma reação atrasada. Também a resistência precisa de timing.
Já no segundo semestre, mudanças pessoais e profissionais. A novidade é mesmo algo surpreendente e, em alguns aspectos da nossa vida, é bom deixar essa sensação sempre viva, não importa por quanto tempo alguém esteja com a gente. Rock step, triple step...
Por falar em companhia, inclusive, devo dizer que esse foi um ano regenerador. Consegui evoluir muito como pessoa, adquiri conhecimento de mim mesmo e dos outros. Mais uma vez, em alguns pontos hoje sou uma pessoa mais madura e mais leve.
No final do ano, ainda tive o privilégio de conhecer novos horizontes. Antes eu não gostava de viajar, mas, de novo, o que não é o amadurecimento na vida de uma pessoa...
E quanto ao ano novo? Boas previsões, com certeza. Precisarei de mais energia, principalmente para eliminar desperdícios tão presentes agora. Há muito mais para fazer, e o tempo voltará a ser recurso escasso. Deve haver agitos, até porque águas tranquilas como as de 2014 não podem nem devem durar para sempre.
Saturday, October 25, 2014
Peso Invisível
Dia desses eu estava caminhando, provavelmente indo para o trabalho, e pisei num inseto. Não lembro qual bicho era, também não vem ao caso. O que vem é que eu, andando, na minha, nem tinha me dado conta da existência daquela coisinha no meu caminho, e só me apercebi do acontecido depois de ter ouvido a casquinha do coitado se quebrando debaixo da minha sola.
Já passei da fase de ter dó de artrópode, mas não da fase da inculcação. Comecei a refletir então em que nível as escolhas que fazemos nos tornam dependentes de outras pessoas, mesmo que por uma fração de segundo.
É de se pensar: durante o dia, quantas vezes depositamos nossas vidas nas mãos de outra pessoa sem que nenhuma das duas sequer tome conta disso? Quantas vezes temos o controle total da vida de alguém sem nem perceber? E são momentos, instantes mínimos que podem mudar, melhorar, interromper, ou manter inalterada a vida de qualquer das partes envolvidas.
Surge então, durante aquela besteirinha de nada de segundo, uma grande responsabilidade sobre os ombros de quem pode definir a situação. É como se, naquele instante decisivo, surgisse um peso invisível, porém altíssimo, incapaz de ser suportado por mais tempo.
Assustador? Sem dúvida. Intrigante? Pode apostar. Muito mais do que isso, porém, vejo algo de divino em tamanha aleatoriedade. Tudo bem que, para Deus, nada tem a névoa do imprevisível, mas não deixa de me impressionar que todo esse sistema chamado vida seja tão complexo e vibrante e frenético ao ponto de, dentro de uma insignificância temporal, reinventar-se por completo, ainda que nada aconteça.
Não quero também deixar ninguém paranoico. Parece-me apenas necessário apontar o quanto somos limitados e ignorantes na nossa vida diária. A propaganda de uma rádio diz "em vinte minutos, tudo pode mudar". Quem dera a gente tivesse vinte minutos, ou mesmo vinte segundos pra tomar toda decisão importante.
A verdade mais dura, e talvez mais sedutora, ouso dizer, é que a nossa vida muda a todo instante pelas mãos dos outros, assim como nós transformamos as vidas de outros tantos sem saber, e ninguém se dá conta disso, pelo menos não até que o resultado tenha aparecido. Belo, assustador e absolutamente acachapante é o mistério de viver com mais gente nesse planeta.
Thursday, May 22, 2014
Viva e deixe morrer
Como é do conhecimento de todo ser vivo desta nação, uma certa programaçãozinha está prevista para acontecer em junho e julho. Ora, não há qualquer objeção para à ocorrência de um evento no País, desde que esse evento nos respeite. Somos amigos, queremos interagir.
Aparentemente, e digo aparentemente apenas para fins eufemísticos, a condição acima não foi cumprida. Muitas pessoas estão sofrendo duramente as construções e renovações que estão sendo feitas. Estou falando de gente perdendo a moradia, de gente tendo cirurgia cancelada e de gente perdendo aulas.
Há tanta coisa errada acontecendo que não existe o menor clima pra fazer festa. Toda a comemoração pode rolar, mas nós não somos obrigados a festejar. Ou somos?
Espere aí, isso é interessante. Eis uma coisa que se pode fazer para ser civilizado: nada. Faça nada, meu fi. Fale nada. Esnobe a coisa toda, dê um gelo, deixe que morra de fome, de carência, deixe que toda a glória aventada seja para uns poucos sozinhos, ou seja, para ninguém. Não mencione, não gaste, não, não, não.
Interessante seria deixar a indignação ecoar no silêncio, o dinheiro no bolso. Coisa linda seria deixar que os fogos arrebentassem em vão, como que anunciando vitórias vazias e nada envolventes. Sim, deixe morrer em todo seu esplendor, como aquela ex maluca que liga sempre e aquele bully chato da escola. Deixe o silêncio ensurdecedor da rotina e de uma vida melhor encobrir toda a firula que é ter o quintal de casa invadido por quem chegou chutando o cachorro, trocando a decoração e dando em cima da mulher.
Sim, meu jovem, vai ter... Alguma coisa no salão. Não concorda? Simples: ignore. A resistência de fazer nada, porém, já vou logo dizendo, é difícil. Lembre-se apenas de que não é obrigado a aceitar algo só porque todo mundo aceitou. Quem calar nesses dois meses não estará consentindo, mas ignorando a brincadeira de mau gosto, e atualmente, é o melhor que se pode fazer.
Aparentemente, e digo aparentemente apenas para fins eufemísticos, a condição acima não foi cumprida. Muitas pessoas estão sofrendo duramente as construções e renovações que estão sendo feitas. Estou falando de gente perdendo a moradia, de gente tendo cirurgia cancelada e de gente perdendo aulas.
Há tanta coisa errada acontecendo que não existe o menor clima pra fazer festa. Toda a comemoração pode rolar, mas nós não somos obrigados a festejar. Ou somos?
Espere aí, isso é interessante. Eis uma coisa que se pode fazer para ser civilizado: nada. Faça nada, meu fi. Fale nada. Esnobe a coisa toda, dê um gelo, deixe que morra de fome, de carência, deixe que toda a glória aventada seja para uns poucos sozinhos, ou seja, para ninguém. Não mencione, não gaste, não, não, não.
Interessante seria deixar a indignação ecoar no silêncio, o dinheiro no bolso. Coisa linda seria deixar que os fogos arrebentassem em vão, como que anunciando vitórias vazias e nada envolventes. Sim, deixe morrer em todo seu esplendor, como aquela ex maluca que liga sempre e aquele bully chato da escola. Deixe o silêncio ensurdecedor da rotina e de uma vida melhor encobrir toda a firula que é ter o quintal de casa invadido por quem chegou chutando o cachorro, trocando a decoração e dando em cima da mulher.
Sim, meu jovem, vai ter... Alguma coisa no salão. Não concorda? Simples: ignore. A resistência de fazer nada, porém, já vou logo dizendo, é difícil. Lembre-se apenas de que não é obrigado a aceitar algo só porque todo mundo aceitou. Quem calar nesses dois meses não estará consentindo, mas ignorando a brincadeira de mau gosto, e atualmente, é o melhor que se pode fazer.
Wednesday, May 07, 2014
A fraqueza do singular
De 18/06/2011
Hoje faz uma semana que aconteceu uma coisa horrível aqui perto. Uma garota foi violentada bem próximo da minha casa. Segundo o que li nos jornais, ela foi arrastada até o local, e enquanto era conduzida, esperneou e se debateu, mas ninguém que passou pelo "casal" a ajudou. Fiquei indignado.
Hoje faz uma semana que aconteceu uma coisa horrível aqui perto. Uma garota foi violentada bem próximo da minha casa. Segundo o que li nos jornais, ela foi arrastada até o local, e enquanto era conduzida, esperneou e se debateu, mas ninguém que passou pelo "casal" a ajudou. Fiquei indignado.
A frieza da cidade me impressiona. Não sei se é porque tive a oportunidade de viver um tempo em bairros que tinham clima parecido com o de cidade pequena, ou se é apenas questão cultural do cenário cosmopolita, mas é o que consigo perceber. Estamos todos na correria, e mal sabemos o vizinho que temos. Os amigos a gente conta nos dedos de uma mão, e os inimigos já são tantos que se perde a conta em meio ao estresse de se manter vivo.
Não sabemos quem está do nosso lado e quem é contra. Estamos sempre preocupados em atingir algum objetivo, em responder a demandas e expectativas. O produtivismo tomou conta de nossa sociedade, e a um preço bastante alto.
Como seres independentes, células individuais e especializadas de um organismo, temos capacidade de trabalho e força pra fazer aquilo que queremos sem depender de ninguém. No entanto, estamos igualmente sujeitos aos solavancos da vida, fruto das boas e más intenções de quem igualmente busca seu modo de vida passando por nosso caminho.
Aprendo cada dia mais a dar valor às pessoas que estão por perto, não apenas por uma questão de proteção, mas principalmente para me sentir fortalecido e fortalecer quem está ao meu redor. Gostaria de ver uma sociedade menos militarizada, com menos gente morrendo por motivos absolutamente idiotas.
Sei que soa utópico esperar que as coisas melhorem, ainda mais com essa moda de tragédia que impera na cultura pop e nos telejornais. O histórico de guerras e conflitos revela que entender o outro nunca foi uma das maiores preocupações do ser humano. Seria demais desejar uma mudança nesse sentido?
Penso que não; só espero que não esteja sozinho.
Penso que não; só espero que não esteja sozinho.
Monday, February 10, 2014
Andorinha atrasada
Um dos meus grandes arrependimentos no ano de 2010 é não ter montado uma resistência mais forte em relação à escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014. Talvez nada realmente mudasse pelo fato de eu dizer "sou contra" ou "não sei se é uma boa idéia, melhor não", mas todos saberiam da minha posição de desconfiança desde o começo.
Quando saiu a seleção, eu me perguntava se a gente tinha condição de sediar uma Copa. Em 2010 a resposta era óbvia, e infelizmente continua sendo em 2014.
E agora que as coisas estão parcialmente feitas e os bolsos realmente cheios, essa realidade ficou escancarada para todo o mundo. Há problemas na infraestrutura dos aeroportos, dos hotéis e do transporte público.
De fato, foram feitas muitas exigências legais por parte da Fifa para a realização do evento. Pessoas foram postas pra fora de suas casas em desapropriações absurdas e arbitrárias. Nossas leis foram subjugadas e dobradas. Há tanto abuso em todo o processo que não é nenhum exagero dizer que estamos nos prostituindo por um punhado de chutes a gol.
Não há ingênuo que acredite tratar-se de um mero evento esportivo. É muito mais. Antes fossem apenas jogos esportivos entre nações. Tenho a impressão de que o futebol de verdade virou mera desculpa de socialização, um coadjuvante dentro de seu próprio show. Mais importantes se tornaram os estádios, os patrocinadores e tudo aquilo que existiria apenas para divulgar e enfatizar o esporte, porém esse é o menor dos problemas dessa Copa.
Ao contrário, pairam dúvidas sobre a viabilidade do evento, e a maior parte dos benefícios prometidos não chegará a tempo. A própria lógica de realizar "obras para a Copa", quando elas deveriam existir para beneficiar a população, soa puramente reativa e oportunista.
É por esses motivos que tomei uma decisão. Não assistirei a nenhum jogo da Copa. Tentarei também não consumir produtos de nenhuma marca que abertamente apoie o torneio. A única coisa que me interessa é o Walk Again Project, do Miguel Nicolelis. No mais, nada.
Se é certo que uma andorinha não faz verão, que ao menos ela seja livre para voar pra onde quiser. As camisas estão lindas, os estádios também. Peço, porém, licença aos superotimistas e aos bandidos para me esquivar de todo esse auê. Nem toda a beleza do mundo me fará esquecer a tolice que é ter a Copa no Brasil.
É por esses motivos que tomei uma decisão. Não assistirei a nenhum jogo da Copa. Tentarei também não consumir produtos de nenhuma marca que abertamente apoie o torneio. A única coisa que me interessa é o Walk Again Project, do Miguel Nicolelis. No mais, nada.
Se é certo que uma andorinha não faz verão, que ao menos ela seja livre para voar pra onde quiser. As camisas estão lindas, os estádios também. Peço, porém, licença aos superotimistas e aos bandidos para me esquivar de todo esse auê. Nem toda a beleza do mundo me fará esquecer a tolice que é ter a Copa no Brasil.
Wednesday, January 01, 2014
Dia primeiro
Não é o ano que muda. Sou eu que estou mudando. De hoje em diante, firmo o compromisso de ser a melhor pessoa que eu puder ser. Sim, deveras me comprometo a buscar a excelência da vida e das coisas, e a tentar, ainda que muitas vezes falhando, influenciar positivamente a vida dos que me rodeiam.
Não é o ano que acaba. Sou eu que, aproveitando a vibe da renovação que a todos se estende, decido enterrar os meus rancores e a deixar florescer o que eu tiver de melhor. Para isso, regarei com persistência os talentos a mim confiados e podarei com tenacidade as ervas daninhas que aparecerem. Assim farei, mesmo que a água seja distante e escassa, e a tesoura, embotada e senil.
Não é o ano que se esgota. Sou eu que, vendo o aperto da hora, comprometo-me a tentar não desejar apedrejar quem me acorda, e a desperdiçar menos tempo rolando na cama.
Nao é o ano que termina. Sou eu que, depois de tanto entrar em pilhas erradas e discussões ridículas, encerro os velhos desentendimentos e ofereço a paz e o respeito a quem tiver me ofendido ou sido ofendido por mim.
Não é o ano que se encolhe. Sou eu que, vendo a minha timidez me possuir e me arrancar oportunidades, decido correr mais riscos e a superar meus medos antigos, por mais assustadora que pareça ser a possibilidade de interagir com um estranho.
Nao é o ano que desbota. Sou eu que, agora, quero uma vida mais criativa. Estas já revoltas e impiedosas madeixas nao saberão da tesoura por meses, e as minhas notas, guardadas no disco, irão para a nuvem.
Nao é o ano que some. Sou eu que, já cansado, lanço fora os meus próprios fardos e os confio ao Rei Jesus, para que este, mais Valente do que eu, lute as lutas que não posso lutar e me dê força para encarar as que eu puder.
Nao é que o ano não tenha sido bom; ele foi. Sou eu que, decididamente, espero fazer deste o melhor ano que puder, para que nao precise prometer tanto no próximo dia primeiro.
Feliz Ano Novo
Não é o ano que acaba. Sou eu que, aproveitando a vibe da renovação que a todos se estende, decido enterrar os meus rancores e a deixar florescer o que eu tiver de melhor. Para isso, regarei com persistência os talentos a mim confiados e podarei com tenacidade as ervas daninhas que aparecerem. Assim farei, mesmo que a água seja distante e escassa, e a tesoura, embotada e senil.
Não é o ano que se esgota. Sou eu que, vendo o aperto da hora, comprometo-me a tentar não desejar apedrejar quem me acorda, e a desperdiçar menos tempo rolando na cama.
Nao é o ano que termina. Sou eu que, depois de tanto entrar em pilhas erradas e discussões ridículas, encerro os velhos desentendimentos e ofereço a paz e o respeito a quem tiver me ofendido ou sido ofendido por mim.
Não é o ano que se encolhe. Sou eu que, vendo a minha timidez me possuir e me arrancar oportunidades, decido correr mais riscos e a superar meus medos antigos, por mais assustadora que pareça ser a possibilidade de interagir com um estranho.
Nao é o ano que desbota. Sou eu que, agora, quero uma vida mais criativa. Estas já revoltas e impiedosas madeixas nao saberão da tesoura por meses, e as minhas notas, guardadas no disco, irão para a nuvem.
Nao é o ano que some. Sou eu que, já cansado, lanço fora os meus próprios fardos e os confio ao Rei Jesus, para que este, mais Valente do que eu, lute as lutas que não posso lutar e me dê força para encarar as que eu puder.
Nao é que o ano não tenha sido bom; ele foi. Sou eu que, decididamente, espero fazer deste o melhor ano que puder, para que nao precise prometer tanto no próximo dia primeiro.
Feliz Ano Novo
Friday, August 16, 2013
Cama arrumada
Certa feita, quando voltei de viagem com a família de uma antiga namorada, fui todo feliz contar o passeio pra minha avó. Ela então disse:
- Que beleza, hein, DanieL (um L gaúcho, mas ela era mineira)? Mas você arrumou sua cama?
Respondi que sim, e de fato eu havia arrumado minha cama. Mas fiquei com a pulga atrás da orelha. Por que raios ela me perguntaria isso? Não seria mais interessante perguntar sobre a praia, ver as fotos e comentar do hotel?
Claro que sim, seria muito legal ver as fotos, falar do hotel, que era novo, reviver em detalhes o jantar na praia. Porém, aquela senhora estava mais interessada em saber como andava o coração do neto, não em relação ao namoro, mas em relação a ele mesmo.
Vovó sempre foi muito preocupada com o caminho dos filhos e dos segundos filhos. "Fico num cuidado", dizia quando a gente saía e não dava notícia. Os anos acumulados davam a ela a experiência e a legitimidade para nos criticar e nos corrigir.
Tinha a chama da bondade. Claro que, quando alguém morre, a gente tende a lembrar-se das coisas boas, esquecer as chateações e enterrar os defeitos junto com o corpo, mas dizer que dona Maria era boa soa como um eufemismo, até uma injustiça. Não negava ajuda; antes, ia atrás dos recursos para atender a quem pedia.
Dificuldades foram muitas. A mulher ficou viúva logo cedo, com três cabritinhos pra cuidar. Entregou sua vida ao Sagrado Coração de Jesus, e fiada nEle foi segurando as pontas, mandando os meninos estudarem sob a luz da lamparina. Não casou de novo, nem namorado teve. "Quando eu for, vou falar pra ele: 'tá aqui a Maria do jeitinho que você deixou'". Usou a aliança enquanto pôde. Nessa união nem a morte triscou.
Os filhos cresceram, todos eles sadios, cada um seguindo seu caminho. Vieram os netos, e foram amparados com o mesmo amor. Começaram os casamentos dos netos; no do mais velho e no da mais nova ela esteve. No final, o corpo não ajudava e a cabeça parecia querer sabotá-la, mas ela sempre se lembrava e fez questão de estar lá.
Vovó não deixou bens. Se muito, uma casa e um barracão. Mesmo um pé de dinheiro, porém, não seria páreo para tamanho legado moral. Ela ensinou que a gente precisa estudar, trabalhar e ser correto, tudo com amor e honestidade. Fez isso muitas vezes falando, ralhando e até atirando seus chinelos em nós, mas o exemplo máximo foi o cotidiano.
E agora ela se foi. Já tínhamos uma responsabilidade enorme só por sermos de sua árvore genealógica, e agora ficou ainda pior. Foi difícil, foi tenso dizer adeus, mas se me perguntarem, direi que não foi nem de longe um dos velórios mais tristes que já vi.
Hoje, quase duas semanas após o acontecido, estou aqui a relatar-lhes esses pedaços de vida. É que não consigo mais estender um lençol sem repensar a minha.
- Que beleza, hein, DanieL (um L gaúcho, mas ela era mineira)? Mas você arrumou sua cama?
Respondi que sim, e de fato eu havia arrumado minha cama. Mas fiquei com a pulga atrás da orelha. Por que raios ela me perguntaria isso? Não seria mais interessante perguntar sobre a praia, ver as fotos e comentar do hotel?
Claro que sim, seria muito legal ver as fotos, falar do hotel, que era novo, reviver em detalhes o jantar na praia. Porém, aquela senhora estava mais interessada em saber como andava o coração do neto, não em relação ao namoro, mas em relação a ele mesmo.
Vovó sempre foi muito preocupada com o caminho dos filhos e dos segundos filhos. "Fico num cuidado", dizia quando a gente saía e não dava notícia. Os anos acumulados davam a ela a experiência e a legitimidade para nos criticar e nos corrigir.
Tinha a chama da bondade. Claro que, quando alguém morre, a gente tende a lembrar-se das coisas boas, esquecer as chateações e enterrar os defeitos junto com o corpo, mas dizer que dona Maria era boa soa como um eufemismo, até uma injustiça. Não negava ajuda; antes, ia atrás dos recursos para atender a quem pedia.
Dificuldades foram muitas. A mulher ficou viúva logo cedo, com três cabritinhos pra cuidar. Entregou sua vida ao Sagrado Coração de Jesus, e fiada nEle foi segurando as pontas, mandando os meninos estudarem sob a luz da lamparina. Não casou de novo, nem namorado teve. "Quando eu for, vou falar pra ele: 'tá aqui a Maria do jeitinho que você deixou'". Usou a aliança enquanto pôde. Nessa união nem a morte triscou.
Os filhos cresceram, todos eles sadios, cada um seguindo seu caminho. Vieram os netos, e foram amparados com o mesmo amor. Começaram os casamentos dos netos; no do mais velho e no da mais nova ela esteve. No final, o corpo não ajudava e a cabeça parecia querer sabotá-la, mas ela sempre se lembrava e fez questão de estar lá.
Vovó não deixou bens. Se muito, uma casa e um barracão. Mesmo um pé de dinheiro, porém, não seria páreo para tamanho legado moral. Ela ensinou que a gente precisa estudar, trabalhar e ser correto, tudo com amor e honestidade. Fez isso muitas vezes falando, ralhando e até atirando seus chinelos em nós, mas o exemplo máximo foi o cotidiano.
E agora ela se foi. Já tínhamos uma responsabilidade enorme só por sermos de sua árvore genealógica, e agora ficou ainda pior. Foi difícil, foi tenso dizer adeus, mas se me perguntarem, direi que não foi nem de longe um dos velórios mais tristes que já vi.
Hoje, quase duas semanas após o acontecido, estou aqui a relatar-lhes esses pedaços de vida. É que não consigo mais estender um lençol sem repensar a minha.
Wednesday, June 19, 2013
Revolução silenciosa
A gente vive um momento histórico no País. É bonito, é legal, é tudo de bom ver que nós, brasileiros, sempre tidos como passivos e manipulados, finalmente resolvemos nos levantar contra as injustiças diárias. Muito legal, mas qual é a raiz do problema?
A raiz do problema está em nós todos, na nossa atitude em relação a tudo. Os políticos são corruptos e criam leis idiotas e inoperantes? Bem, eles não nasceram lá, nós os elegemos. Os administradores públicos foram criados como toda a sociedade e estão lá porque foram eleitos.
A corrupção pública é um escândalo, sempre. Recursos desviados da saúde e da educação para a gasolina azul de alguns engravatados, que piada. E a corrupção particular, por que é tão tolerada? O lixo na rua, o cocô do totó na calçada, o amante dentro do guarda roupa, o colarinho da camisa sujo de batom, deu pra entender, né?
Eu não consigo me esquivar do pensamento de que o status quo ao nosso redor também é culpa nossa. Se a gente é conivente com as pequenas corrupções, que moral tem para discutir as "grandes"?
Talvez o maior benefício de tanto protesto é mostrar que os problemas da nossa sociedade nasceram e são alimentados dentro dela mesma. Podemos trocar as cabeças que mandam por mil anos, mas se os corações forem os mesmos, não vai adiantar.
É importante ir às ruas e demonstrar indignação. Isso demonstra que não estamos cauterizados e indiferentes a tanta sujeira. Porém, acho que mais importante ainda é a "Marcha do Travesseiro", aquela que todos fazem antes de dormir. A revolução da consciência, silenciosa e altamente eficaz, é capaz de mudar comportamentos. Não faz sentido gritar e esbravejar pros políticos pararem de roubar, pros policiais não aceitarem propina, que a PEC 37 é um absurdo, se depois disso a gente para em fila dupla e fura a fila da lanchonete. É ridículo, é besteira.
Se existe tanta injustiça, talvez um dos primeiros passos que podemos dar é sermos todos mais justos e honestos. Sem desculpas, sem enrolação. Claro que é necessário chutar o balde e cobrar de quem deve ser cobrado, mas é bom lembrar que uma sociedade melhor necessariamente precisa de interações melhores e de indivíduos melhores. A hipocrisia, a mediocridade e a esperteza estão escancaradas para todos, e eu espero sinceramente que nós estejamos dispostos a combatê-las.
A raiz do problema está em nós todos, na nossa atitude em relação a tudo. Os políticos são corruptos e criam leis idiotas e inoperantes? Bem, eles não nasceram lá, nós os elegemos. Os administradores públicos foram criados como toda a sociedade e estão lá porque foram eleitos.
A corrupção pública é um escândalo, sempre. Recursos desviados da saúde e da educação para a gasolina azul de alguns engravatados, que piada. E a corrupção particular, por que é tão tolerada? O lixo na rua, o cocô do totó na calçada, o amante dentro do guarda roupa, o colarinho da camisa sujo de batom, deu pra entender, né?
Eu não consigo me esquivar do pensamento de que o status quo ao nosso redor também é culpa nossa. Se a gente é conivente com as pequenas corrupções, que moral tem para discutir as "grandes"?
Talvez o maior benefício de tanto protesto é mostrar que os problemas da nossa sociedade nasceram e são alimentados dentro dela mesma. Podemos trocar as cabeças que mandam por mil anos, mas se os corações forem os mesmos, não vai adiantar.
É importante ir às ruas e demonstrar indignação. Isso demonstra que não estamos cauterizados e indiferentes a tanta sujeira. Porém, acho que mais importante ainda é a "Marcha do Travesseiro", aquela que todos fazem antes de dormir. A revolução da consciência, silenciosa e altamente eficaz, é capaz de mudar comportamentos. Não faz sentido gritar e esbravejar pros políticos pararem de roubar, pros policiais não aceitarem propina, que a PEC 37 é um absurdo, se depois disso a gente para em fila dupla e fura a fila da lanchonete. É ridículo, é besteira.
Se existe tanta injustiça, talvez um dos primeiros passos que podemos dar é sermos todos mais justos e honestos. Sem desculpas, sem enrolação. Claro que é necessário chutar o balde e cobrar de quem deve ser cobrado, mas é bom lembrar que uma sociedade melhor necessariamente precisa de interações melhores e de indivíduos melhores. A hipocrisia, a mediocridade e a esperteza estão escancaradas para todos, e eu espero sinceramente que nós estejamos dispostos a combatê-las.
Wednesday, April 17, 2013
Tempos de cólera
Há quem diga que a Terra nunca foi um lugar tão tranquilo para se habitar. Existem comida e recursos de toda ordem sobrando *por enquanto*, o mundo está globalizado e não enfrenta grandes guerras nem pestes há um tempinho. Fico me perguntando, porém, se há paz, paz de verdade, e não consigo chegar a uma resposta positiva.
Nosso mundo está muito rápido, arretadamente veloz. Temos muito de tudo o tempo todo, sempre. Talvez isso explique por que fica cada vez mais difícil tomar decisões e agir racionalmente, sem viver no automático.
E nessa velocidade toda, parece que a gente está perdendo algumas noções de bom senso, civilidade e justiça. Se já tínhamos um espírito coletivo fraco e abatido, na selvageria da adrenalina fica cada um por si, reduzindo qualquer estranho a um potencial bandido ou aproveitador.
A gente desaprendeu a dar valor ao tempo, porque pra uma passagem tranquila é preciso segurança, e não há! Quem tem pressa come quente, e precisa comer e se queimar porque, se esperar esfriar, talvez não coma depois.
Os dias são maus, muito maus. Há relatos de crimes frios e bárbaros dia após dia, atentados e conflitos ao redor do mundo. Nossa cultura é violenta, nosso comportamento mais ainda. Brigas de trânsito não raro acabam em tiros e shows tem estupros antes da entrada. Achamos super engraçado e até pagamos para ver uma pessoa desferir mil palavrões contra outra que talvez ela nem conheça.
Perdemos a capacidade de discutir racionalmente, com argumentos. Se bem que, se considerarmos que força, dinheiro e armas são argumentos, então talvez precisemos redefinir o que é racionalidade. Ninguém gosta de discutir com balas e lâminas, afinal.
São tempos de cólera, como sempre, de vingança certa e velada. Não há amor brotando por aí, não, filho. Dar a outra face é coisa de retardado que não aprende da primeira e perdão é para mariquinhas. Não existe essa de orar pelos inimigos, já que todos precisam ser pisados e, eventualmente, mortos. Podem me dizer que o planeta é um lugar seguro e feliz, mas pra mim, por baixo de uma transparente e cada vez mais fina camada de racionalidade, impera a carnificina generalizada.
Nosso mundo está muito rápido, arretadamente veloz. Temos muito de tudo o tempo todo, sempre. Talvez isso explique por que fica cada vez mais difícil tomar decisões e agir racionalmente, sem viver no automático.
E nessa velocidade toda, parece que a gente está perdendo algumas noções de bom senso, civilidade e justiça. Se já tínhamos um espírito coletivo fraco e abatido, na selvageria da adrenalina fica cada um por si, reduzindo qualquer estranho a um potencial bandido ou aproveitador.
A gente desaprendeu a dar valor ao tempo, porque pra uma passagem tranquila é preciso segurança, e não há! Quem tem pressa come quente, e precisa comer e se queimar porque, se esperar esfriar, talvez não coma depois.
Os dias são maus, muito maus. Há relatos de crimes frios e bárbaros dia após dia, atentados e conflitos ao redor do mundo. Nossa cultura é violenta, nosso comportamento mais ainda. Brigas de trânsito não raro acabam em tiros e shows tem estupros antes da entrada. Achamos super engraçado e até pagamos para ver uma pessoa desferir mil palavrões contra outra que talvez ela nem conheça.
Perdemos a capacidade de discutir racionalmente, com argumentos. Se bem que, se considerarmos que força, dinheiro e armas são argumentos, então talvez precisemos redefinir o que é racionalidade. Ninguém gosta de discutir com balas e lâminas, afinal.
São tempos de cólera, como sempre, de vingança certa e velada. Não há amor brotando por aí, não, filho. Dar a outra face é coisa de retardado que não aprende da primeira e perdão é para mariquinhas. Não existe essa de orar pelos inimigos, já que todos precisam ser pisados e, eventualmente, mortos. Podem me dizer que o planeta é um lugar seguro e feliz, mas pra mim, por baixo de uma transparente e cada vez mais fina camada de racionalidade, impera a carnificina generalizada.
Monday, March 18, 2013
Não sabemos andar de bicicleta - Parte 2 de 2
Muito bem, antes de seguir com minha ladainha sobre não sabermos nos locomover, quero deixar claro que não estou condenando o ciclista pelo acontecido. Sou um grande defensor da bike como meio de transporte, mas creio que é preciso muito cuidado em cima da magrela, já que nosso País não está preparado para aceitar a bicicleta senão como um meio de lazer.
Nos últimos períodos da faculdade, sempre que eu podia, deixava o carro em casa e ia de bicicleta pra aula. Tinha a sorte de morar relativamente perto, e o caminho era relativamente fácil. Meu pai, porém, nunca gostou muito da idéia. Ele dizia "rapaz, não ande de bicicleta na rua, que vem um bêbado e passa em cima de você".
Infelizmente o homem estava certo. Não aconteceu comigo, mas, coisa de uma semana atrás, um de nós ciclistas perdeu um braço na hipótese imaginada pelo meu pai. Como sempre fui muito preocupado com a segurança na bike, decidi que talvez esse pequeno texto ajudasse quem não quer abrir mão de uma bicicleta, mesmo sabendo dos riscos que corre.
Primeiramente, toda pessoa que se dispõe a subir numa bicicleta pra usá-la como meio de transporte deve saber que não se trata de passeio no parque. Existem regras a serem seguidas e acessórios obrigatórios. Quem está na bike precisa saber seu lugar e mostrar que está ali, para que as outras pessoas também saibam.
Certo, noção de espaço é importante, mas tem também os acessórios. Se você está sobre uma bicicleta, o capacete não é opcional. Compre uma boa couraça pra cuca e um par de luvas. Invista fortemente em visibilidade também: compre faróis e lanternas potentes o suficiente pra ser visto de dia. O cuidado é apenas para não ofuscar outros que estejam na mesma via, então ajuste o ângulo correto das luzes, e deixe-as sempre prontas para uso. Não tenha vergonha de parecer uma árvore de natal, se for necessário.
Fundamental também é gesticular, fazer sua rota previsível. Se você já está visível e sinalizado, facilita pro motorista, mas se pode ajudar ainda mais, então que o faça. Muita gente que atropela um ciclista diz que "ele apareceu do nada!". Pois bem, você não vai ser dessas pessoas que aparecem do nada, porque sabe que sempre que quando uma bicicleta e um carro disputam espaço, a primeira sempre leva a pior. Em cima da bike, não é prudente agir como se os outros soubessem onde estamos ou pra onde iremos. Adendo importante: se tiver de atravessar uma rua pela faixa de segurança, desça da bicicleta. Nenhum motorista é obrigado a parar, a não ser que seja um pedestre.
Ah, sim, não deveria ter de falar, mas é claro que é necessário respeitar a velocidade da via. Tanto na rua quanto na ciclovia, ninguém está ali para correr ou fazer acrobacias. Há pedestres e carros com os quais um ciclista divide espaço, então é bom ser moderado na pedalada. Outro ponto importante é que os freios de uma bike não são tão rápidos quanto os de uma moto ou os de um carro, e isso deve ser levado em consideração na hora de calcular a distância de parada. Não custa lembrar: bike não tem ABS (ainda), então sossegue o facho na hora de frear, senão irá sambar com a roda de trás e cair (nisso eu tenho experiência). Freie mais com o freio dianteiro do que com o traseiro.
Monte de coisa, né? Usar a bike como meio de transporte, portanto, não é tarefa super simples. Exige muito cuidado e planejamento, mesmo que haja ciclofaixas ou ciclovias. É necessário se proteger e se fazer visível, e não dar sopa pro azar. Nenhum investimento em segurança é desnecessário: lembre-se de que qualquer tombo equivale no mínimo a um raladinho.
Agora, pode ser que, mesmo tomando todos esses cuidados, o acidente da semana passada não pudesse ser evitado. No entanto, pode ser que outros acidentes envolvendo ciclistas possam ser evitados se mais pessoas seguirem essas dicas. E se um dedo for poupado por conta dessas palavras, então o esforço de escrever terá valido a pena. Não podemos nos proteger de bêbados e loucos, mas podemos nos proteger da ignorância e do desrespeito. E se queremos ter o respeito dos motoristas e da sociedade em geral, precisamos também respeitar e dar o exemplo.
Nos últimos períodos da faculdade, sempre que eu podia, deixava o carro em casa e ia de bicicleta pra aula. Tinha a sorte de morar relativamente perto, e o caminho era relativamente fácil. Meu pai, porém, nunca gostou muito da idéia. Ele dizia "rapaz, não ande de bicicleta na rua, que vem um bêbado e passa em cima de você".
Infelizmente o homem estava certo. Não aconteceu comigo, mas, coisa de uma semana atrás, um de nós ciclistas perdeu um braço na hipótese imaginada pelo meu pai. Como sempre fui muito preocupado com a segurança na bike, decidi que talvez esse pequeno texto ajudasse quem não quer abrir mão de uma bicicleta, mesmo sabendo dos riscos que corre.
Primeiramente, toda pessoa que se dispõe a subir numa bicicleta pra usá-la como meio de transporte deve saber que não se trata de passeio no parque. Existem regras a serem seguidas e acessórios obrigatórios. Quem está na bike precisa saber seu lugar e mostrar que está ali, para que as outras pessoas também saibam.
Certo, noção de espaço é importante, mas tem também os acessórios. Se você está sobre uma bicicleta, o capacete não é opcional. Compre uma boa couraça pra cuca e um par de luvas. Invista fortemente em visibilidade também: compre faróis e lanternas potentes o suficiente pra ser visto de dia. O cuidado é apenas para não ofuscar outros que estejam na mesma via, então ajuste o ângulo correto das luzes, e deixe-as sempre prontas para uso. Não tenha vergonha de parecer uma árvore de natal, se for necessário.
Fundamental também é gesticular, fazer sua rota previsível. Se você já está visível e sinalizado, facilita pro motorista, mas se pode ajudar ainda mais, então que o faça. Muita gente que atropela um ciclista diz que "ele apareceu do nada!". Pois bem, você não vai ser dessas pessoas que aparecem do nada, porque sabe que sempre que quando uma bicicleta e um carro disputam espaço, a primeira sempre leva a pior. Em cima da bike, não é prudente agir como se os outros soubessem onde estamos ou pra onde iremos. Adendo importante: se tiver de atravessar uma rua pela faixa de segurança, desça da bicicleta. Nenhum motorista é obrigado a parar, a não ser que seja um pedestre.
Ah, sim, não deveria ter de falar, mas é claro que é necessário respeitar a velocidade da via. Tanto na rua quanto na ciclovia, ninguém está ali para correr ou fazer acrobacias. Há pedestres e carros com os quais um ciclista divide espaço, então é bom ser moderado na pedalada. Outro ponto importante é que os freios de uma bike não são tão rápidos quanto os de uma moto ou os de um carro, e isso deve ser levado em consideração na hora de calcular a distância de parada. Não custa lembrar: bike não tem ABS (ainda), então sossegue o facho na hora de frear, senão irá sambar com a roda de trás e cair (nisso eu tenho experiência). Freie mais com o freio dianteiro do que com o traseiro.
Monte de coisa, né? Usar a bike como meio de transporte, portanto, não é tarefa super simples. Exige muito cuidado e planejamento, mesmo que haja ciclofaixas ou ciclovias. É necessário se proteger e se fazer visível, e não dar sopa pro azar. Nenhum investimento em segurança é desnecessário: lembre-se de que qualquer tombo equivale no mínimo a um raladinho.
Agora, pode ser que, mesmo tomando todos esses cuidados, o acidente da semana passada não pudesse ser evitado. No entanto, pode ser que outros acidentes envolvendo ciclistas possam ser evitados se mais pessoas seguirem essas dicas. E se um dedo for poupado por conta dessas palavras, então o esforço de escrever terá valido a pena. Não podemos nos proteger de bêbados e loucos, mas podemos nos proteger da ignorância e do desrespeito. E se queremos ter o respeito dos motoristas e da sociedade em geral, precisamos também respeitar e dar o exemplo.
Friday, March 15, 2013
Não sabemos dirigir - Parte 1 de 2
Tivemos um acontecimento estarrecedor essa semana. Um motorista atropelou um ciclista. Na colisão, este perdeu o braço direito, que ficou preso no veículo. Sem prestar socorro, o motorista deixou o carona em casa e depois jogou o braço do atropelado num córrego. Fim?
Não. Não tem fim. Tragédias como essa sempre acontecem. A que narrei acima não foi a primeira nem será a última. É esse tipo de evento que me leva a crer que nós, na verdade, não sabemos dirigir um veículo.
Vou explicar melhor: a gente sabe como fazer o carro andar (na maioria dos casos), mas provavelmente muitos ignoram o risco que o movimento implica. Tio Ben, aquele do Homem Aranha, dizia que "com grande poder vem grande responsabilidade".
Na nossa sociedade, que valoriza a aparência, o status, o poder e a juventude, carro é poder. O povo, porém, parece que faz vista grossa pra segunda parte da máxima. Não é nenhum absurdo dizer que o trânsito é perigoso. Fechamos a porta do possante, vestimos a armadura brilhante de metal e vidro e assumimos que nada nos impedirá de chegar ao nosso destino o mais rápido possível.
Infelizmente, é verdade que, atrás do volante, a gente assume riscos estúpidos, que não valem a recompensa. Fazemos pela pressa, pela vingança, pela diversão pura, o motivo não importa. Colocamos no fio da espada não só a nossa vida, mas a de pessoas que estão ao nosso redor, mesmo que por um segundo.
Aliás, não é necessário mais do que uma fração desse tempo para mudar radicalmente uma porção de vidas. Voltando ao nosso exemplo, quantas pessoas foram direta e permanentemente afetadas pela perda desse braço direito? Esse acidente poderia ser evitado? Será que o custo valeu a brincadeira do motorista? Valeria a pressa, a vodka comprada antes, valeria alguma coisa que o dinheiro, esse miserável adorado, compra?
Alguns podem dizer que aquele humilde limpador de vidros não deveria estar ali com sua magrela, que não estava sinalizado, nem com capacete etc. Com o perdão de todos os ignorantes e sábios, penso que isso não alivia um grama a grande burrada do motorista. Casos como esse tornam legítima e necessária a aplicação da Lei Seca tolerância-zero. Pena que o buraco seja mais embaixo, ligado à consciência do poder que um veículo proporciona.
Não sei se ficou claro, mas não consigo frisar o suficiente o quanto é necessário ter cuidado na hora de se locomover, tanto a pé quanto sobre rodas. Não deveríamos assumir temeridades quando elas não fossem necessárias. E se alguém pensa que dirigir corretamente é algo sem graça, que tente pensar em quão desgraçante e humilhante é a experiência de um acidente.
Não custa lembrar, por fim, que "os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres" (CTB, art.29, §2º). Antes de pegar num volante, pense em sua responsabilidade como pessoa e, por favor, tente não atropelar ninguém por um motivo fútil.
Mas e o cara da bicicleta? Só digo uma coisa: senta que lá vem a história...
Não. Não tem fim. Tragédias como essa sempre acontecem. A que narrei acima não foi a primeira nem será a última. É esse tipo de evento que me leva a crer que nós, na verdade, não sabemos dirigir um veículo.
Vou explicar melhor: a gente sabe como fazer o carro andar (na maioria dos casos), mas provavelmente muitos ignoram o risco que o movimento implica. Tio Ben, aquele do Homem Aranha, dizia que "com grande poder vem grande responsabilidade".
Na nossa sociedade, que valoriza a aparência, o status, o poder e a juventude, carro é poder. O povo, porém, parece que faz vista grossa pra segunda parte da máxima. Não é nenhum absurdo dizer que o trânsito é perigoso. Fechamos a porta do possante, vestimos a armadura brilhante de metal e vidro e assumimos que nada nos impedirá de chegar ao nosso destino o mais rápido possível.
Infelizmente, é verdade que, atrás do volante, a gente assume riscos estúpidos, que não valem a recompensa. Fazemos pela pressa, pela vingança, pela diversão pura, o motivo não importa. Colocamos no fio da espada não só a nossa vida, mas a de pessoas que estão ao nosso redor, mesmo que por um segundo.
Aliás, não é necessário mais do que uma fração desse tempo para mudar radicalmente uma porção de vidas. Voltando ao nosso exemplo, quantas pessoas foram direta e permanentemente afetadas pela perda desse braço direito? Esse acidente poderia ser evitado? Será que o custo valeu a brincadeira do motorista? Valeria a pressa, a vodka comprada antes, valeria alguma coisa que o dinheiro, esse miserável adorado, compra?
Alguns podem dizer que aquele humilde limpador de vidros não deveria estar ali com sua magrela, que não estava sinalizado, nem com capacete etc. Com o perdão de todos os ignorantes e sábios, penso que isso não alivia um grama a grande burrada do motorista. Casos como esse tornam legítima e necessária a aplicação da Lei Seca tolerância-zero. Pena que o buraco seja mais embaixo, ligado à consciência do poder que um veículo proporciona.
Não sei se ficou claro, mas não consigo frisar o suficiente o quanto é necessário ter cuidado na hora de se locomover, tanto a pé quanto sobre rodas. Não deveríamos assumir temeridades quando elas não fossem necessárias. E se alguém pensa que dirigir corretamente é algo sem graça, que tente pensar em quão desgraçante e humilhante é a experiência de um acidente.
Não custa lembrar, por fim, que "os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres" (CTB, art.29, §2º). Antes de pegar num volante, pense em sua responsabilidade como pessoa e, por favor, tente não atropelar ninguém por um motivo fútil.
Mas e o cara da bicicleta? Só digo uma coisa: senta que lá vem a história...
Thursday, February 28, 2013
Cidade Fantasma Virtual
Provavelmente já tenha acontecido na história da humanidade alguma coisa que tenha feito que uma cidade tenha sido quase totalmente evacuada às pressas. Seria um fenômeno assim, tão repentino e frenético que as pessoas, na ânsia de fugirem, não olharam para trás, nem jamais voltaram para buscar qualquer pertence. Assim, a cidade ficou lá, quase intacta, muitas casas preservadas em detalhe, praticamente um retrato de como se vivia naquela época.
Se você, assim como eu, nunca precisou passar fisicamente por isso, saiba que temos um exemplar de cidade fantasma bem na frente dos nossos narizes. Onde fica? Http://www.orkut.com. É como se uma rede social inteira tivesse parado no tempo.
O Orkut foi um fenômeno no qual eu entrei atrasado. Peguei o auge, sim, mas foi daí pra decadência. E que decadência vertiginosa. A coisa foi tão rápida, o povo mudou pro Facebook numa fissura tão inexplicável que muita coisa do O rosa choque continua inalterada.
Se entrar lá agora, Vossa Senhoria verá muitos namoros já extintos mais bem conservados do que se estivessem em formol. Sim, senhor, estão lá os status de relacionamento "namorando" com aquela e aquele que hoje são ex (quem sabe até já não se casaram com outros/outras), as fotos hoje antigas, os depoimentos, ah, os depoimentos... Quando alguém gostava demais de outra pessoa lá nos idos de 2007 a 2009, paixão irrefreável, amizade até a morte, fazia o quê? Depoimento fofinho, às vezes mais de um. Havia até quem se aventurasse nas "invasões".
Por mais piegas que pareça, hoje parece que essas coisas tem certa beleza. Até o fato de estar quase tudo meio que intocado, pouca gente transitando pelas esquinas virtuais daqueles cantos. Dá pra contar nos dedos de uma mão as contas atualizadas dos meus amigos. As fotos de perfil de cinco anos atrás... Gente, como as pessoas mudam e a gente nem percebe. As carinhas jovens hoje são rostos bem delineados, com algumas ruguinhas de vinte e poucos anos, quiçá um cabelinho braco, sorrisos metálicos hoje cristalinos, ou o contrário.
E tudo isso ainda está lá, em muitos perfis. Quase um museu da nossa geraçãozinha, o Orkut virou sinônimo de coisa ruim, desclassificada. "Facebook orkutizou", dizem as meninas com alma de madame. Esquecem-se essas mesmas das ruínas que ainda estão sobre todos nós, nessa nuvem chamada internet que faz chover sobre bons e maus. Dê uma olhada lá, minha querida, vá lá ver de qual é, meu caro sangue bom, que de repente ainda tem coisa no ar que já foi pro espaço faz tempo.
Enquanto a limpeza não acontece, porém, dou uma passada por lá de vez em quando só pra sentir o cheirinho de naftalina com mofo. Quase um stalker nostálgico, entro nos perfis, checo os scraps. Interessante ver a beleza do que não existe mais, ter uma visão mais distante... E pensar que "nunca imaginei que as coisas iriam se desenrolar desse jeito". As modinhas passam, mas muitas lembranças ficam. E de efemeridade em efemeridade a gente vai vivendo, até chegar na eternidade.
P. s.: pra completar o clima de poeira e papel amarelo, escrevo essas linhazinhas ao som de Coldplay, no sempre bom e jamais velho A Rush of Blood to the Head. Meu Senhor, isso é tão 2003...
Friday, December 21, 2012
O palmeirense, o traído e a mãe sem a filha
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
(Carlos Drummond de Andrade. Poema de Sete Faces)
Fim dos tempos é coisa relativa. Todo os dias, milhares de mundos sucumbem, outros tantos surgem e muitos sobrevivem em meio a alegrias, lutas e dores. Catástrofe planetária parece um jeito cômodo demais para todo mundo se livrar de seus problemas, uma boa desculpa pra gente não mover um músculo pra resolvê-los.
Se é certo que esse texto pode ser lido, então é porque o mundo não acabou. A quem lê-lo, sugiro que abandone qualquer medo do fim, que mova mundos e fundos atrás de seus objetivos, e que viva com propósito. Esse mundão véi de meu Deus, apesar de umas indiretas de que quer cair pelas beiradas, não vai se acabar tão cedo.
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
(Carlos Drummond de Andrade. Poema de Sete Faces)
Não existe coisa melhor do que uma história sem sentido pra movimentar a internet. Não faz muita diferença se é piada ou se é sério, já que tudo será esquecido com a invenção da próxima história. O importante é o movimento, a discussão rasa.
Falar em fim do mundo tem um tempero a mais, porque no centro da muvuca está a ideia de que todos vamos morrer quase que instantaneamente vítimas de um meteoro, de bombardeio ou de qualquer outro meio rápido e indolor. Ninguém quer que o mundo acabe lenta e dolorosamente, afinal.
E o que mais me chamou a atenção em todo esse alarde é que, na verdade, fim do mundo é uma coisa muito pessoal. Permita-me exemplificar esse negócio de três formas bem singelas e nem por isso menos intensas.
Pergunte a um palmeirense o que é ver seu time afundar miseravelmente e depois ter de ver o técnico do time comandar a seleção do País. Ah, sim, no mesmo ano em que seu arquirrival conquista a América e o planeta. Só pode ser o fim do mundo.
Pergunte a um cônjuge traído o que ele sentiu ao descobrir a lambança de seu consorte. Não há humilhação que caiba nessas linhas pra dizer o que é uma situação dessas. É o fim do mundo do casado, com direito a pranto e ranger de dentes.
Se tudo isso parece leve, pergunte o que é fim do mundo a uma mulher que, depois de sucessivos abortos espontâneos, finalmente conseguiu dar à luz e teve de dar adeus a sua filhinha com sete dias de vida. Simplesmente não há ETs, planetas colidentes ou bombardeios suficientes pra que ela se importe. O mundo não acabou na última explosão, mas no último suspiro.
Fim dos tempos é coisa relativa. Todo os dias, milhares de mundos sucumbem, outros tantos surgem e muitos sobrevivem em meio a alegrias, lutas e dores. Catástrofe planetária parece um jeito cômodo demais para todo mundo se livrar de seus problemas, uma boa desculpa pra gente não mover um músculo pra resolvê-los.
Se é certo que esse texto pode ser lido, então é porque o mundo não acabou. A quem lê-lo, sugiro que abandone qualquer medo do fim, que mova mundos e fundos atrás de seus objetivos, e que viva com propósito. Esse mundão véi de meu Deus, apesar de umas indiretas de que quer cair pelas beiradas, não vai se acabar tão cedo.
Sunday, November 04, 2012
Aprendendo a dizer não
Todos os dias à noite, chegando na faculdade, temos de nos deparar com meia dúzia de pessoas distribuindo folhetos de eventos e oportunidades. Contratadas pra isso, muitas delas nem dizem um “boa noite”, apenas empurram um folheto em nossa direção, dizendo implicitamente que peguemos aquele pedacinho de papel e sigamos nosso caminho.
Já quase colando grau, percebi que a maioria desses folhetos não tem qualquer utilidade para mim. No entanto, continuava pegando e só me dava conta de tamanha inutilidade quando estava ali, com o papel na mão. Aparentemente é o que quase todas as demais pessoas fazem, e basta dar uma olhada nas lixeiras e arredores da entrada para comprovar. Então me pus a pensar sobre isso. Por que pegamos algo que não queremos, mal lemos e depois jogamos fora?
Determinado a acabar com essa atitude submissa, comecei a traçar estratégias para não ter mais de encarar o desgosto de pegar papéis desnecessários. Em princípio, andava colado atrás de qualquer pessoa próxima, pra que ela pegasse o folheto e não desse tempo de me oferecerem um. Percebi depois que agir desse modo é ainda mais bundamolice do que simplesmente aceitar pegar um papel e depois jogá-lo no lixo.
Finalmente, entendi que a melhor forma de não pegar papéis que não queremos é dizer “não, obrigado”. Surpreendentemente, essa atitude tão simples me encorajou a ter mais pulso e a ser mais resoluto no cotidiano. Recusar ativamente alguma coisa implica não só um punhado de coragem, mas também de amor próprio. Uma olhadela no que está sendo oferecido pode ser o suficiente para saber se aquilo será útil ou não.
E para quem sempre pega os papéis, é certo que um pouquinho de educação não machuca ninguém. Há lixeiras coloridas ali, na entrada mesmo, pra descartar os folhetos. Se estiverem lotadas, não tem estresse: folhetos de divulgação não causam câncer; é possível segurar até um punhado deles por mais trinta segundos até encontrar uma nova lixeira, a dez metros ou menos da primeira, e permanecer saudável.
Não é que todos os folhetos sejam inúteis (alguns trazem coisas interessantes, até). No entanto, dizer não a essa publicidade – e a toda a sujeira que ela gera na porta da facul – tem e feito muito bem. Quando alguém vem me oferecer eu faço mais ou menos assim:
Tuesday, September 18, 2012
Estamos emburrecendo com a tecnologia?
Tecnologia é mais que uma palavra hoje em dia. A vida virtual e a extensão dela para todos os nossos aparelhos eletrônicos têm uma interferência substanciosa em todos os aspectos do cotidiano. Mesmo a galera que não é muito ligada em circuitos admite que estamos em um estágio de desenvolvimento galopante no que se refere a novos meios de fazer as coisas.
Estamos bem mais aparelhados do que as gerações que viveram antes da gente. Grande parte da população tem Internet, celulares com câmera, carros inteligentes (tá, um pouco menos aqui no Brasil), roupas leves, tratamentos de ponta e milhares de redes sociais para integrar. Muito legal tudo isso, mas e nós?
Bem, nosso hardware permanece o mesmo há pelos menos cinco mil anos, aproximadamente. Quanto ao software, temos que as pessoas ao redor do mundo inventaram diversas plataformas para lidar com suas necessidades, mas também esses programas evoluem a passos lentos e estão fortemente atrelados à parte física.
Trocando em miúdos, nossa forma de comportamento, falando numa perspectiva macro, não se alterou essencialmente desde que o mundo é mundo. Continuamos amando quem nos ama, odiando que nos odeia. Continuamos inventando coisas e manias novas, jeitos de construir e de entreter. Existe tanta coisa boa para ver que bate uma desorientação em quem procura, e isso tudo é muito legal.
No entanto, a impressão generalizada é de que o mundo vai de mal a pior. Acusamo-nos todos os dias de degradar os valores morais e de não ter mais respeito por nada. Noções de autoridade, civilidade e boa educação estão minguando mais rápido que poços de petróleo. Continuamos matando, roubando e destruindo a nós mesmos e a todas as diferentes formas de vida possíveis com criatividade igualmente ímpar.
Fica claro, então, que nós, seres humanos, não mudamos muita coisa desde que assumimos essa configuração. Ainda temos as mesmas capacidades e os mesmos debilidades de outrora, mas agora com mais meios de potencializar aquelas e minimizar estas. E quem vier depois vai ter mais ainda, mas continuará sendo feito de carne, osso e, quando muito, pinos e chips. A tecnologia em si é uma faca de dois gumes que a gente amola a cada dia que passa, cortando mais fundo pros dois lados ao mesmo tempo. Desse quiproquó sem fim, três bugs ainda restam soberanos, sem previsão de reparo: a fragilidade dos laços, a mediocridade das promessas e a maldade dos corações. Estamos precisando de uma atualização.
Wednesday, February 01, 2012
O legado que deixamos
Minha família perdeu recentemente uma pessoa muito querida, de quem todo mundo gostava. Tinha coração puro e olhos brilhantes, cheios de Paz. Foi um golpe duro, sentido e ressentido em Goiás e em Minas Gerais.
Vendo tamanha comoção no seio familiar, me pus a pensar sobre o que faz alguém sentir tanta falta de outra pessoa quando esta não se encontra mais entre os viventes. Por que alguns têm a morte pranteada e chorada à exaustão, enquanto outros sequer são notados ou lembrados?
Vão-se os dedos, os cabelos, os olhos, o corpo. Ficam os anéis, as roupas, os óculos e tudo o mais que restou. Objetos, no entanto, podem ser de outra pessoa. Mesmo os órgãos podem ser aproveitados e doados para um estranho necessitado.Até onde a vista alcança, deixam saudades as pessoas que fizeram diferença para um mundo melhor, mesmo que esse mundo não tenha passado de um outro ser humano. Assim, o que fica da gente é o que fica nos outros. É a nossa influência, aquilo que fizemos de bom e de ruim a todo mundo. E é só.
No fim, o que fica da gente é só um pouco de alma. Alma que ficou aprisionada no coração das pessoas, que usaram um espacinho seu (voluntariamente ou não) pra guardar a lembrança do que fomos. Ter o legado preservado e lembrado, então, não é uma decisão consciente, algo como "quero que as pessoas se lembrem de mim". Talvez o mais importante seja realmente viver, aproveitar a intensidade de tudo.
Não digo se entregar aos prazeres e não se importar com mais nada, mas se dedicar àquilo e àqueles que nos fazem bem, buscar as coisas que queremos com amor e obstinação. Sim, porque, lá fora, a vida pulsa e explode em cores e rodopios, e existe muito o que fazer com um pouco de disposição.
Quanto a mim, não sei o que vou deixar de legado pra quem fica, até porque há muitas lutas pra administrar agora. Não que eu pense muito a esse respeito também - você vê, foram só algumas linhas. O que sei é que o exemplo de minha prima deixará lembranças boas, vívidas e duradouras em todos os que a conheceram. Vovó que o diga.
Wednesday, December 21, 2011
2011
Intenso. Essa é a palavra que definiria minha vida em 2011. Definitivamente, eu vivi com muita paixão os dias que se passaram. Não que tenha sido de todo bom.
O ano foi claramente dividido em duas partes pra mim. O início do primeiro semestre me trazia ventos de esperança, porque eu havia praticamente finalizado uma parte terrivelmente difícil da minha vida, que foi a monografia a distância. Eu estava confiante de que tudo iria bem e só precisaria viver normalmente para ter uma boa experiência, tocar meus sonhos e ajeitar a vida.
A coisa ficou ainda mais interessante com a viagem de carnaval, quando fui pro paraíso ao lado de outro paraíso. Veio, então, o clímax com a minha colação de grau - definitivamente, um dos momentos de maior êxtase na minha vida.
Tudo ia bem até que veio o meio do ano. Férias pequenas, pedregulhos emocionais entrando no sapato, remanejamento da vida pra segunda parte do ano.
Em agosto a situação ficou preta. Fiquei com a visão turva, tomei caminhos errados, investi meus níqueis em bois que não eram para mim, fiquei endividado e sozinho. Nunca esperei tanto que um mês passasse.
Setembro trouxe ventos de esperança e renovação. Fui começando a me reconstruir, até que, do meio para o fim do mês, veio o grande choque. E foi mau.
Foi então que decidi me fortalecer. Voltei pra academia, entrei na aula de dança, busquei meus amigos, meus quase amigos, meus colegas, meus conhecidos, todo mundo. Enquanto isso, vi e tomei atitudes impensadas, das quais certamente não me orgulho, mas que foram necessárias.
Meu, 2011 me trouxe tanto aprendizado... A maior parte dele, sim, no segundo semestre, e na base da paulada e da punhalada. Eu vivi tanto em 360 dias que parece que foram dois ou três anos. Percorri um grande espectro de sentimentos e emoções. Percebi-me mais humano, mais limitado, mas também mais consciente de mim mesmo e das minha habilidades. Eu me tornei mais forte e versátil.
E agora estamos em dezembro. O ano finalmente termina. Engraçado o finalmente... Em geral eu diria "mas já?". Mas não... Eu realmente quero que esse ano termine, e me deixe apenas as lembranças boas, o aprendizado e o amadurecimento. Mesmo porque não tenho tempo nem espaço pra guardar coisas ruins.
Em tudo que aconteceu, porém, vejo agora a presença firme e constante de Deus na minha vida. Se por ignorância, petulância ou teimosia, não fui merecedor de tanto aprendizado em tão pouco tempo, e mesmo assim Ele me conduziu com amor e paciência, e permitiu que meus pesadelos terminassem antes do dia 31.
Para 2012, não espero nada menos arrochado. Existe mesmo uma onda de pessimismo que se alastra na minha geração, então as coisas com certeza não estão muito boas. Mas é na confiança no Grande que tenho agora e na maturidade que adquiri que sigo tateando, batendo e apanhando. A vida é boa, e vale a pena. Quero viver cada instante com os olhos abertos e o coração bacana. Que 2012 seja melhor, e ainda mais intenso.
O ano foi claramente dividido em duas partes pra mim. O início do primeiro semestre me trazia ventos de esperança, porque eu havia praticamente finalizado uma parte terrivelmente difícil da minha vida, que foi a monografia a distância. Eu estava confiante de que tudo iria bem e só precisaria viver normalmente para ter uma boa experiência, tocar meus sonhos e ajeitar a vida.
A coisa ficou ainda mais interessante com a viagem de carnaval, quando fui pro paraíso ao lado de outro paraíso. Veio, então, o clímax com a minha colação de grau - definitivamente, um dos momentos de maior êxtase na minha vida.
Tudo ia bem até que veio o meio do ano. Férias pequenas, pedregulhos emocionais entrando no sapato, remanejamento da vida pra segunda parte do ano.
Em agosto a situação ficou preta. Fiquei com a visão turva, tomei caminhos errados, investi meus níqueis em bois que não eram para mim, fiquei endividado e sozinho. Nunca esperei tanto que um mês passasse.
Setembro trouxe ventos de esperança e renovação. Fui começando a me reconstruir, até que, do meio para o fim do mês, veio o grande choque. E foi mau.
Foi então que decidi me fortalecer. Voltei pra academia, entrei na aula de dança, busquei meus amigos, meus quase amigos, meus colegas, meus conhecidos, todo mundo. Enquanto isso, vi e tomei atitudes impensadas, das quais certamente não me orgulho, mas que foram necessárias.
Meu, 2011 me trouxe tanto aprendizado... A maior parte dele, sim, no segundo semestre, e na base da paulada e da punhalada. Eu vivi tanto em 360 dias que parece que foram dois ou três anos. Percorri um grande espectro de sentimentos e emoções. Percebi-me mais humano, mais limitado, mas também mais consciente de mim mesmo e das minha habilidades. Eu me tornei mais forte e versátil.
E agora estamos em dezembro. O ano finalmente termina. Engraçado o finalmente... Em geral eu diria "mas já?". Mas não... Eu realmente quero que esse ano termine, e me deixe apenas as lembranças boas, o aprendizado e o amadurecimento. Mesmo porque não tenho tempo nem espaço pra guardar coisas ruins.
Em tudo que aconteceu, porém, vejo agora a presença firme e constante de Deus na minha vida. Se por ignorância, petulância ou teimosia, não fui merecedor de tanto aprendizado em tão pouco tempo, e mesmo assim Ele me conduziu com amor e paciência, e permitiu que meus pesadelos terminassem antes do dia 31.
Para 2012, não espero nada menos arrochado. Existe mesmo uma onda de pessimismo que se alastra na minha geração, então as coisas com certeza não estão muito boas. Mas é na confiança no Grande que tenho agora e na maturidade que adquiri que sigo tateando, batendo e apanhando. A vida é boa, e vale a pena. Quero viver cada instante com os olhos abertos e o coração bacana. Que 2012 seja melhor, e ainda mais intenso.
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